Crônica para o Metro de 24.12.13

Pergunto-me se gosto mesmo do Natal. Assim, na lata: sim ou não? Questão complicada. O mais confortável é marcar logo um xis no “sim” e fugir do obscuro território das profundezas d’alma. Afinal, sou católico, aprecio a boa mesa, dar e receber presentes é simpático, essas coisas. O problema é que as renas do trenó do bom velhinho, às vezes (e por força da necessidade), estão cagando e voando. Acaba por respingar fezes para todo lado. Logo, há bons natais e natais ruins.

Na biografia de Rubem Braga (como terminar 2013 sem falar em biografias, hein?) denominada “Um cigano fazendeiro do ar”, escrita por Marco Antonio de Carvalho (Ed. Globo, 2007), lá pelas tantas da página 499, é citado um diálogo no qual o publicitário Mário de Almeida diz para o cronista: “Você não gosta de Cachoeiro [do Itapemirim]. Você gosta do seu tempo de infância em Cachoeiro”. Diz que o velho Braga não contestou. Ao contrário, até simpatizou com ele. Pois, parafraseando, no que concerne às rotinas de Jingle Bells, seria mais honesto assinalar que eu não gosto do Natal. Gosto é do período de infância no Natal.

Quando pequeno, vivi natais de encantamento e fartura: pinheiros naturais até o teto; muitos e belos enfeites; Avenidas São Pedro e Pres. Roosevelt luxuosas; dezenas de crianças entre irmãos e primos e, por isso, árvore lotada de pacotes; mesa posta para muita gente com louças e cristais que só se via em dia de festa. Papai Noel chegava batendo o sino e distribuía presentes e conselhos. Quando pai de filhos pequenos, ainda que a escala deixasse um pouco a desejar (já não vivíamos momento de pinheiros naturais ou famílias numerosas), ajudei a montar igual cenário. Guardo no coração cada Natal destes.

O problema é que, primeiro, eu cresci. Crescendo, vi o quanto pode ser teatral e falso o ambiente de amor e fraternidade, mesmo no seio familiar. Depois, cresceram os filhos e, pior, sinto no peito as ausências que maculam a beleza das guirlandas, fitas e estrelas. Resta-me a mensagem de esperança simbolizada pelo presépio, esta capaz de resistir às intempéries e pronta para revelar novos ciclos de vida. Deus menino será sempre meu Natal. Eu menino, meus meninos para sempre e, quem sabe, netos quando chagar a hora.

Mas, o que fazer nesta entressafra de crianças para salvar o humor e voltar ao sim, ainda que com ressalvas, para a pergunta do início? Decidi, peralta, quebrar nozes com uma só mão. Desta forma, lembrar do meu pai fazendo o mesmo (enquanto a mãe pedia para usar o quebra-nozes). E recordar de mim impressionando os pequenos ao fazê-lo. Mesmo que soe trocadilho ruim, o espírito do Natal pode sobreviver em noz. Desde que seja divertido quebrar a casca.

 

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