Rubem Penz

Quando a UFRGS escolheu o álbum “Tropicália ou Panis et Circenses” como uma de suas leituras obrigatórias para o Vestibular, foi uma festa em meu peito. Combato de forma veemente quem insiste em considerar menor a tarefa de escrever letras para canções, tomando por base algumas horríveis como sendo regra absoluta. Poucos trabalhos exigem mais talento do que letrar uma melodia. Afinal, é o único suporte (local onde repousam as palavras) que já vem com significados embutidos, os quais precisam ser contemplados. O papel aceita tudo, diz o ditado. A música, não.

Letra musical é a transposição de uma linguagem sonora – notas, articulações, pausas e intenções – em palavras. A tessitura deste encontro, com êxito, faz a imagem poética ganhar tanta força que facilmente nos leva às lágrimas. Dependendo, nos conclama à luta, nos seduz, embala o sono ou transporta para outros (novos ou velhos) tempos. Antes de existir a escrita, era com música que registrávamos as mensagens de modo a passar por gerações. Quase não sei poemas de memória, mas músicas, tenho muitas firmes na ponta da língua graças a potente cola melódica.

Um país com um dos mais ricos cancioneiros populares jamais deveria deixar a Academia esquecer deste patrimônio cultural. Quando uma universidade de porte oferece aos calouros a obrigatoriedade de estudar fonogramas, faz com que milhares de jovens se debrucem sobre o significado de arranjos, composições e letras num contexto histórico e social. Particularmente, “Tropicália” oferece uma prodigiosa síntese, pois contempla em uma só obra alguns dos mais inquietos, sensíveis e inteligentes artistas dos meados do Século 20. Com sorte, o estudante terá curiosidade em procurar outras referências musicais da época. Com maior ventura, buscará autores contemporâneos capazes de questionar e repercutir nosso momento – os melhores estão distantes dos holofotes, mas ativos em canais alternativos.

Caso o tema interesse porque você tem filhos ou conhecidos entre os vestibulandos, confio indicar o Teatro Vestiba com o musical “A Tropicália tá chegando”. Uma empolgante mistura de dramaturgia, show e aula para levar nossos meninos até uma época marcante da história recente (anos 1960) e mostrar como os artistas serviam de diapasão para a sociedade. Como sei? É que vi os ensaios “de dentro”: sou o baterista – uma espécie de Charlie Watts tropical – do espetáculo. Quem sabe até fui escolhido por ser alguém nascido naquele tempo, podendo conclamar: Baby, você precisa saber o que sei e o que não sei mais, você precisa…

Crônica publicada no Metro Jornal em 17.06.2014

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