Metro - Porto Alegre

O tombo no vaso de violetas

Coluna do Metro em 06.02.2013

O TOMBO NO VASO DE VIOLETAS

Nossa, faz tanto tempo… Brinco (a sério) ter sido em vidas passadas. Morava num simpático apartamento de um quarto, primeiro lar que sucedia a casa dos meus pais e, talvez por isso, com uma luz especial. Mas não apenas por isso: era solar mesmo, com amplas aberturas e vista para uma praça. Era um imóvel novo, como jovens éramos nós, os habitantes.

Tínhamos uma samambaia crespa na varanda e vasos de violeta na meia parede que separava a cozinha da área de serviço. Ambas, plantas da moda (não são apenas raças de bichanos e cães oscilam entre in e out). Das violetinhas, duas sempre floridas e uma acomodada. Um dia, por má sorte, dei um tombo terrível no vaso da violeta preguiçosa. Ah, os homens! – diriam as moças apressadas. Mas sou do tipo cuidadoso: foi um raro acidente. Juntei-a, acomodei a terra outra vez no lugar e limpei a sujeira do chão. Seria um segredo nosso, combinei.

E teria sido, mesmo, se não fosse por um detalhe: a violeta falou. Quer dizer, falou numa linguagem figurada, florindo de modo belo, intenso, resplandecente. Surpreendida, minha companhia à época partiu para o interrogatório: o que eu fizera de diferente? Aconteceu alguma coisa, hein? Desconversei. Contei o ocorrido para uma amiga bióloga. A consultora explicou: a natureza se acomoda em tempo de fartura e reage quando ameaçada. Sem querer, defrontei a pobre planta com a morte e ela, imediatamente, tratou de florir.

Talvez seja isso que conseguimos nós, também, quando reagimos com bravura aos baques que a vida nos proporciona. Reparando bem, provavelmente estávamos opacos e sem encanto, navegando numa calmaria acomodada e infrutífera. Depois do susto, agrupamos as energias e passamos a florir, fascinantes. Algo como “o que não nos mata nos fortalece”, para citar um dito antigo. Uns reagem mais rapidamente, outros depois de algum tempo. Basta querer.

Para não deixar a historinha do passado sem final, encorajado por ter feito, sem saber, um bem para a tal violeta, enfim confessei em detalhes o que acontecera. Não sei se isso deu alguma ideia, consciente ou inconsciente, ao meu par. O fato é que em pouco tempo sucedeu outro tombo naquela casa. E foi apenas o primeiro que eu sofri nessa vida. Doeu bastante, mas ressurgi alvissareiro. Há testemunhas de que nesse caso nada não foi tão acidental. Basta perguntar para a samambaia, se conseguirem encontrá-la.

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