Metro - Porto Alegre

Presente sem chance de futuro

Rubem Penz

Para as ciganas, o futuro pode ser lido nas linhas da mão – e diz a piada que elas costumam se ofender com quem tem mãos grossas. Para os árabes, bons e maus presságios são revelados nas manchas da borra do café (existirá futuro descafeinado?). Há quem adivinhe o destino através dos relevos e concavidades da cabeça, do fundo do olho, da cera das velas. Temos o jogo de búzios, as cartas do tarô e a leitura de pedras. Por fim, a mais charmosa investigação do porvir: a bola de cristal. Clássicos!

E as novidades na área? Depois de criteriosa pesquisa, não tive a menor dúvida de que tanto a revolução industrial quanto a era digital, apesar das grandes conquistas no campo da tecnologia, pouco ou nada contribuíram na esfera mística. E não vale argumentar com sites para fazermos mapa astral porque isso é apenas o facilitador para uma cultura milenar. Enquanto não aparecer um artifício contemporâneo para servir de genuíno veículo de perquirir os misteriosos desígnios do tempo, minha conclusão é de que o futuro está refém do passado.

Em busca da explicação para o fenômeno recorri às inscrições de Nostradamus – coisa antiga, não é mesmo? Foi quando interpretei uma passagem menos famosa em que ele, numa vírgula misteriosamente mal colocada, parece querer trazer o seguinte recado: “O indizível só pode ser lido através do perene”. Matei a charada! Nada de novo fala sobre o amanhã por causa da obsolescência que marca nossa época. A chave mística seria repousar a magia em um suporte capaz de sobreviver mais do que décadas (ou meses, dependendo do ramo).

Parece que os adivinhos até tentaram se apegar a algo novo, mas não conseguiram. Os últimos fracassos que eu soube vieram da leitura do futuro em fitas mastigadas de videocassete, chiados de rádios de faixa-cidadão e movimento dos fantasmas do Pac-Man. Um místico tentou substituir a bola de cristal pelo tubo de imagem. Ele ia mais ou menos bem até a esposa pedir para comprarem uma TV de tela plana. Outro ouvia sinais em seu Motorola PT550 e, depois de não conseguir mais comprar baterias, voltou a ler cartas. Pouco do que se produz tem mostrado longevidade.

Como se pode ver, com a morte programada pelo consumo incontrolado e tecnologia galopante (ou vice e versa), daqui a mil anos ainda teremos gênios saindo de lâmpadas e ciganas espantadas diante das linhas da mão. Nada do nosso presente terá tempo para virar tradição. Exatamente como Andy Warhol vaticinou para as pessoas, os objetos de agora entrarão para a história com a efemeridade dos 15 minutos.

Crônica publicada no Metro Jornal em 12.05.15

 

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