Rufar dos Tambores

Tratamento de choque

Número 431
Rubem Penz
Um amigo foi submetido a um tratamento de choque. Altíssima voltagem. E com consequências permanentes para a compreensão das circunstâncias ao seu redor. Ao nosso redor. Contarei sua história.
Em recente viagem de trabalho ao exterior, fora do eixo das grandes metrópoles, ele resolveu dar uma passeada por um bairro residencial para bem aproveitar um repouso. E seguiu por uma alameda qualquer, apreciando a fileira de árvores, os gramados bem aparados, os canteiros de flores, janelas abertas, casas bem cuidadas e sem luxo. Cães, crianças e adultos em distraída convivência, absortos com seus afazeres e sequer reparando no atento caminhante.
A idílica sequência de passos, ao invés de prazenteira, foi sendo tomada de uma angústia crescente, sem que ficasse claro o motivo. O mal estar impôs a reflexão: o que há de errado na paisagem, nas pessoas? Por que me perturba viver uma cena que já assisti milhares de vezes em filmes ou na grade de programação da TV por assinatura? Eis a palavra chave: grade. Faltavam grades. Não havia muros, cercados, portões. Nem tramelas, cadeados, correntes. O choque.
Furtos, assaltos, violência física e psicológica, crimes contra a vida e maldades em geral não escolhem lugar ou vítima. Muito menos são exclusividade de países, estados ou cidades. Meu camarada não estava chocado com a existência de um mundo ideal, livre da crueldade dos homens. O grande baque foi perceber que naquela cidade ninguém culpava o cidadão pelos crimes dos quais seria uma vítima em potencial. Em nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, fomos todos condenados.
Vivemos em prisão perpétua e regime semi-aberto: sim, é preciso deixar a cadeia para trabalhar. Antes de sairmos, fechamos a cela, atravessamos as grades e, bem educados, damos bom dia ao carcereiro. Quanto pior for nosso delito, também conhecido pelo nome de prosperidade, maior será a segurança: cerca elétrica, alarmes, muros, sensores de presença, câmeras de vigilância, rastreamento eletrônico, veículo blindado. Trilhões de Reais investidos neste sofisticado sistema prisional.
Não sendo o suficiente, a população ainda precisa suportar a imposição de diversas regras de conduta por parte de técnicos privados e agentes públicos: não ande com muito dinheiro no bolso e separe as cédulas dos documentos; antes de acionar o portão da garagem, investigue os arredores em busca de movimentos suspeitos; não atenda desconhecidos ou dê esmolas; mantenha os vidros do automóvel fechados; evite rotinas e mude trajetos; desconfie de entregas de flores ou mercadorias; investigue o passado dos prestadores de serviços etc. Ao descuidado, o castigo virá cedo ou tarde.
Depois do choque, meu amigo constatou que fomos cozidos tal qual o sapo mergulhado em água fria: lentamente, fogo brando. Trinta anos atrás, poucas eram as casas com muros intransponíveis, grades e segurança. As crianças de todas as classes sociais deixavam a escola a pé, andavam de bicicleta pelos bairros, jogavam bola no terreno baldio. Sentávamos nas calçadas para curtir o final de tarde, porta aberta. Jovens circulavam pela madrugada indo das festas para casa. Já havia ricos, pobres e miseráveis; bandidos e polícia; virtudes e pecados. O que não existia era a pena de prisão imposta ao inocente, cuja culpa pode ser a pretensão de um dia voltar a morar em uma alameda calma, arborizada e livre. Crime hediondo.


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