Crônica 500

Virando a página

Rubem Penz

Interessante essa figura de linguagem a ser aplicada em nossa vida: virar a página. Mais do que ir adiante, parece significar o ato de deixar de olhar para o que se tem (tinha?) diante dos olhos e defrontar-se com o novo. Gesto que pode ser abrupto e impactante como um salto na piscina gelada, ou parte de um processo mais lento, elaborado, ensaiado. Em alguns momentos de ação resoluta, quase segura. Em outros, vacilante. Sempre no arrepio do inédito. Às vezes molhado de lágrimas.

Uma coisa é certa: o virar de página é definitivo. Mesmo que se retorne, algo novo já foi revelado, transformando as folhas tantas em mera consulta. Pode ser feito por iniciativa própria (obediência ao desejo, necessidade, curiosidade), com a tutela de terceiros ou mesmo de modo aparentemente passivo. Sim: circunstâncias da vida atuam com força e nos pegam distraídos, virando uma, duas, às vezes várias páginas adiante. Mas até nesse permitir pode estar contida uma vontade inconfessa.

Lembrando Chico, também podemos constar impressos e, quando menos se espera, já somos página virada para alguém. Nenhuma pessoa saudável controla – ou tenta controlar – o livro alheio. Ficar para trás dá um pouco de pânico no começo: é escuro, sumimos, estamos ordenados com os tantos outros registros da vida. Ora em fotos, ora em palavras (muitas vezes meio soltos, lembrando aquelas flores guardadas para secar e esquecidas para sempre), faremos parte da história. E nada garante que voltaremos a aparecer mais adiante.

Há quem seja impossível deixar para traz. Não importa o quanto se avance, a pessoa estará impressa em nossa rotina futura de modo indelével – desejável ou indesejavelmente. A maior diferença talvez esteja contida na proporção: mencionado ali, necessário acolá, inconveniente em algum momento… Se constante, testemunha, protagonista, é uma falsa virada de página: livro que repete o texto indefinidamente está com grave defeito. É um horror.

O mais bacana de virar a página é constatar que, entre passagens previamente escritas por nossas ações passadas, há enormes lacunas a serem ocupadas pelo inédito. E temos a caneta nas mãos. Espaço para outro penteado ou pensamento, experiências novas, aprendizado. Diversas amizades, desafios e, quem sabe, amores. Novidades, enfim, que só a página virada oferece. O vento sopra. Nada segura minhas mãos.

 

PS: esse texto nasceu pensando no Rufar dos Tambores 500. Um marco, sem dúvida, resultado de uma vigorosa virada de página centenas de semanas atrás. Mas também da consciência de que é apenas um número: é preciso estar disposto a novas e belas viradas. O vento sopra!

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