Rubem Penz

Faz muitos anos imaginei um lar com sua rotina contaminada pelas manobras e barganhas de uma casa legislativa. Tive como inspiração o fato de que as relações conjugais e familiares migraram de uma ditadura patrimonial-paternalista para uma democracia: agora, todos no núcleo estão com voz e voto. Aliás, pela imensa atualidade, cheguei a resgatar este texto em 2014 e, se publicado em 2016, ninguém estranharia.

Hoje, fui apanhado pensando parecido. E se todo casamento fosse, constitucionalmente, sujeito a um sufrágio periódico aos moldes do Poder Executivo? Sei lá, algo como a renovação de núpcias de quatro em quatro anos com direito a eventual troca de eleito (ou eleita). Nada parecido com divórcio, vale ressaltar. Divórcio, neste (des)caso, está mais para impeachment – quebra de contrato conjugal motivado por fundamentada pisada na bola. Em minhas reflexões, surgiram alguns pontos interessantes.

Por exemplo: uma noiva pode casar com um mancebo que lhe prometa céus, terras e uma vida de princesa. Não só pode, como deve! Já imaginou que sonho? Depois, pode até renovar os votos nupciais passados quatro anos, mesmo sem conhecer céus, terras e vida de princesa – desde que note um esforço neste sentido. Porém, no mínimo começará a duvidar da veracidade das promessas. Agora, se o noivo nada fizer para cumprir os compromissos, vivendo o próprio numa espécie de reinado, haverá chance para ele?

(Toca o alarme interno instalado em todo cronista atual e, para não ser acusado de machista – ou feminista –, o parágrafo anterior pode ser ilustrado com uma noiva que jure ao rapaz que ele terá céus, terras e uma vida de príncipe sem alterar o sentido.)

Bom, alguém mais romântico pode dizer que somos reeleitos diariamente na intimidade do lar, em pequenos e constantes compromissos mútuos. Mas, com a existência da cerimônia ritualizada (nem que seja só com noivos e padrinhos para ficar mais barato) é certo que refletiríamos mais sobre como anda a relação. Faríamos o tal “balanço”. Com o tempo, aprenderíamos a desconfiar de promessas excessivas e a julgar atitudes coerentes.

Noutro cenário – bem mais radical – o risco seria, de decepção em decepção, ninguém mais contrair núpcias. Cansar de tantas eleições, sabe? Achar que ninguém presta, nada tem jeito, só piora. Então, colocar a culpa na democracia. Triste é nunca faltar quem pense assim…

Crônica publicada no Metro Jornal em 01.03.2016

*Leia “Votos Nupciais” em http://rubempenz.net/numero-215/

 

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