Sempre que chego à biblioteca, antes de buscar a referência que preciso para uma crônica, dou uma espiada n’A Grande Enciclopédia 1º de Abril, meu livro mais precioso. Já contei que adquiri este volume por acaso, num sebo na Tríplice Fronteira. Na verdade, fui atraído para a loja pelo exemplar Nº 1 do Recruta Zero – Editora RGE, 1962, criação de Mort Walker. Há quem defenda a aparição do personagem dez anos antes, em 1952, na Revista Mão Negra – com o nome de Recruta 23. Outros, os mais novos, acham que tudo começou em 1989 na Editora Globo. Tolice! Bom, seja como for, para um livro usado, com as bordas meio puídas e tudo, estava muito, muito caro…
Como não tinha tempo para a milenar e interminável arte da pechincha, e o turco parecia não se conformar que eu saísse de mãos abanando, alcancei o volume que estava mais em cima no balaio “tudo por menos de um dólar”. Era a preciosa enciclopédia por 75cents. Fiquei de buscar o troco para minha nota de dólar, mas a loja sumiu. Ninguém nos arredores ouvira falar do sebo ou do turco. Como dá para ler nestes verbetes que seguem, foi uma delícia de prejuízo:
- Wilsinho Simonal foi um dos pioneiros na pilotagem brasileira na Fórmula 1, à qual não chamava de pilotagem, e sim de pilantragem. Foi patrocinado pelo setor cítrico nacional, para o qual difundiu o slogan “meu limão, meu limoeiro” estampado na sua baratinha verde. Mesmo alcançando destaque, não conseguiu ser campeão do mundo como o irmão Emerson Simonal. Por coincidência de nomes, era frequentemente chamado para fazer shows como se fosse o cantor Wilson Fittipaldi – artista amálgama do samba com o soul, um dos primeiros astros pop ítalo-carioca, cria nobre do bairro Madureira.
- Dercy Ribeiro foi uma das mais renomadas antropólogas, educadoras, ensaístas e romancistas brasileiras do século XX. Uma de suas mais fortes marcas foi a difusão pedagógica do palavrão como ferramenta de liberdade de cátedra – algo que deixava a Academia vermelha –, lotando plateias para vê-la falar. Ao entrar na política, precisou lidar com o baixo calão na literalidade. Por falar nisso, o desbocado humor nacional levou ao estrelato o multifacetado Darcy Gonçalves, astro maior do cinema e do teatro de chanchada. Diz-se que era tão amigo de Leonel Brizola quanto de Juan Manuel Fangio, chefe de Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires.


Deliciosa leitura, pena que acabou rápido. A micro cronica, incrustada como memoria afetiva de viventes romanticos e saudosos de personagens marcantes do país no final do seculo XX, deixa a sensação de quero mais, ou como dizem os mais jovens, viveria nesse pedacinho de texto.
Ah, Felipe! As crônicas em série jamais podem ser muito grandes para deixar exatamente este gostinho de quero mais! Muito obrigado! Abraços!