Para ser infeliz basta pouco

Número 445

Para ser infeliz basta pouco

Rubem Penz

Engana-se quem pensa que é preciso muito para ser infeliz. Ao contrário, a infelicidade está ao alcance de todos, sem medir classe social, idade, sexo, credo ou nacionalidade. Também independe de prática ou habilidade, não exige formação técnica nem superior, pré-requisitos ou apadrinhamento. Por fim, constitui direito de todos sair em busca da desventura.

Para começo de conversa, é consenso que a infelicidade está nos pequenos gestos: a falta de um sorriso aqui, o virar de costas ali, o silêncio acolá. Não procure a infelicidade longe, pois ela pode estar bem ao seu lado. Os motivos para ser infeliz podem chegar ao acaso – por exemplo, quando o garçom confunde seu pedido. Ainda planejadamente, como no caso do diretor que tudo faz para abiscoitar os méritos nascidos de seu trabalho.

Família e infelicidade podem ter laços de sangue. Comece culpando seus pais por tudo o que tenha dado de errado em sua vida. Mas não fique por aí: diga isso para eles tão logo surja a primeira oportunidade. Além de lhes causar grande tristeza, você será brindado com doses elevadas de desgosto para gerir. É quando vem o melhor: ao descobrir que os pais fizeram das tripas coração para deixar você contente, e que sua ingratidão lhes consumiu os últimos dias de saúde, a infelicidade será sua companhia diária para o resto da existência.

No casamento, ser infeliz é mais fácil do que parece. A união de dois estranhos, na cegueira da paixão, promete muitos anos de abatimento. Para tanto, use a intimidade que só a aliança carnal permite para conhecer os pontos frágeis do outro, guardando tudo em um paiol de mágoas. Desde a primeira crise, atire sua munição sem piedade, provocando o movimento igual em sentido contrário. Assim, ambos terão para si muitos ressentimentos na memória. E o mau humor será a viva herança deixada aos filhos.

Mas não se engane: se o que foi dito até agora induz a pensar que precisamos dos outros para chegar ao fundo do poço, saiba que não. Não, mesmo! A maior infelicidade está contida na solidão. Explico. Ao fazer de tudo para afastar quem lhe deseja o bem – pais, filhos, cônjuge, amigos, colegas –, e tendo o isolamento como consequência, a infelicidade estará mais do que garantida: será só e plenamente sua, sem que precise dividir com mais ninguém. Não é o máximo?

Agora, se com isso tudo você ainda teima em ficar contente com a vida, aí fica difícil de eu ajudar. Daqui a pouco irá até imaginar que se pode ser feliz com mínima dose de dignidade, carinho e respeito, e que tudo mais chega ao natural. Olha que horror: já posso ver um leve sorriso nascendo em seu rosto.


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8 comentários em “Para ser infeliz basta pouco”

  1. Excelente texto!
    Foi um dos assuntos no grupo que se reuniu no último sábado em meio ao Jantar do Gnochi da Sorte!
    Parabéns Sr. Penz! A gente Penzou muito a respeito!
    Náira.

  2. Adorei! Rubem, tua ironia tem um sabor especial. Quem sabe, ao ler esta tua crônica, algumas pessoas se convençam de que, ser feliz é mais difícil do que se pensa!Infinitamente mais difícil! Abração!

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