Rufar dos Tambores

Número 384

DE BAIXO PARA CIMA

Rubem Penz

Em termos de peças íntimas, a primeira lembrança que nos chega à mente é o par formado pela calcinha e sutiã. Não para menos: em shoppings, há muitas lojas especializadas em lingeries. E, naquelas de departamentos, um andar quase inteiro ostentando uma variedade fetichista e saborosa de modelos, cores e tamanhos. Falando pelos homens, por mais que nos agrade tamanha abundância e beleza (como abundância coube bem no contexto!), nós sempre olhamos este exagero das mulheres com desconfiança: seria para tanto?

Pois, por uma coincidência de calendário, poucos dias depois de eu comprar umas três ou quatro cuecas novas, ganhei outras seis. O resultado desta multiplicação fenomenal no closet foi o sumiço de qualquer vestígio de elástico frouxo ou cor desmaiada de minha intimidade. De um dia para o outro, vivo uma rotina carefree: estou sempre com a sensação de uma cueca recém tirada da gaveta… Da loja! Incomodado com isso ficava meu avô! Quase cogito a hipótese de depilar as axilas, só para abanar para as câmeras com aquele sorriso iluminado das moças nas propagandas de TV. Descontando o exagero retórico, se estiver em um hotel e disparar o alarme de incêndio no meio da madrugada, garanto que abandono o quarto cheio de estilo!

Parece mentira, mas andar pela rua com cuecas novas é quase como ter estudado o suficiente para uma prova: quem olha para ti, percebe uma carga extra de segurança em cada passo. O mirar é sereno; a fleuma, fácil. Pouco ou nada importa a realidade crua e fria de que, provavelmente, ninguém jamais saberá de onde nasce tanta confiança – não esqueçamos de que sou alguém comprometido. O que vale no momento é experimentar aquilo que os olhos não veem, mas as virilhas sentem. É como estar com a arma engatilhada, o jantar na mesa, o carro engatado, a resposta na ponta da língua. Totalmente em dia!

Falando em tese (a cada linha dou mais corda para o enforcamento…), estar despido das calças, mesmo nos momentos em que isso é planejado, esperado, desejado até, sempre é momento de reconhecida tensão. Seria muita ingenuidade masculina desprezar a evidente valorização das nossas roupas de baixo por parte das mulheres. Mesmo no lusco-fusco ou no vuco-vuco, sob a diáfana luz do abajur cor de carne (Ritchie vive!), no relance de um olhar furtivo para a janela do vizinho, as fêmeas da espécie são capazes de condenar um homem ao lixo erótico-afetivo no caso de ele estar descuidado. Vivemos dias de BBB: vacilou e a (má) fama se espalha. Um pouco mais de barriga ou menos de cabelo é contingência biológica. Já cueca furada, ah não!, um relaxamento imperdoável.

Restaria, ainda, a última confissão antes de concluir – como se já não estivesse fazendo uma exposição suficiente de minha intimidade… As seis cuecas foram presente de mamãe. Pior: antes de ela comprar, ligou-me advertindo que, segundo o balconista, peças íntimas não podem ser trocadas. Por isso, queria saber se eu tinha certeza total e absoluta de que usava tamanho P, como lhe dissera. Olhos de mãe são tão otimistas… Meu porte físico fica bastante claro para qualquer um, mesmo nas roupas de cima. Não seria razoável pretender desmenti-lo justo nas roupas de baixo. No fundo, estaria enganando a quem?

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