Rufar dos Tambores número 513

Cabeças fora de controle

Rubem Penz

Nos últimos anos, os cabelos (meus, teus, nossos) foram mais de uma vez assunto de crônica. Pode parecer que nada mais passa pela cabeça de um pobre escritor calvo – compreendendo a calvície como aquele ponto elegante entre a juvenil cabeleira e a irreversível careca. Ao contrário: fujo do tema tanto quanto posso. No momento, porém, há um fato novo. Quero dizer, novo em termos: está mais para a visão de um museu de grandes novidades, como dizia Cazuza. De acordo com agências internacionais de notícias pouco relevantes, porém curiosas, o governo da Coréia do Norte baixou uma norma limitando o número de cortes e penteados para 28 opções (para mulheres) e dez para os homens.

Não é de hoje que nossas melenas assumem um papel distintivo, libertário, questionador. Para ficarmos na história recente, os Beatles foram duramente criticados por setores mais conservadores da sociedade muito menos por suas músicas do que pelo corte de cabelo. O que estariam pensando aqueles rapazes ao adotarem visuais tão incomuns? A reação chegou depressa: pelo mundo inteiro, jovens adotaram os novos penteados criando uma verdadeira comunidade de beatlemaníacos. Deles, suponho que metade por concordarem com as letras e mensagens das músicas. Os outros cinquenta por cento para agradar – conquistar! – as meninas. Uma maneira de usufruir da onda.

Logo a seguir, recordo do musical Hair, encenado em teatro e depois filmado nos Estados Unidos. Negros e negras maravilhosos em seus penteados Black Power, rapazes caucasianos com madeixas batendo na cintura e moças aparentemente divorciadas do pente e da escova dançavam e cantavam pela paz. O exército norte americano, retratado pela violência da máquina de cortar cabelos, lutava no Vietnam. A resistência estética dos hippies aparecia nas roupas, modos e, principalmente, cabeças. Utopias encaracoladas, lisas, pintadas e soltas ao vento. Tudo acompanhado de sexo, drogas e rock and roll.

Aqui, a Tropicália e os Novos Baianos foram movimentos que mostraram cabeças livres da repressão e da censura das tesouras. Os rapazes da Jovem Guarda também, mas com um pouco mais de método. Anos mais tarde, yuppies e punks abriam um verdadeiro abismo de objetivos, lemas e aspirações evidenciado pela diferença de cortes e penteados. De modo inconfundível, externavam o que se passava dentro de suas cabeças. Com muito gel, retrataram o aparente triunfo do sistema capitalista e a revolta dos excluídos. Pensando nisso, os moicanos de salão de beleza dos jogadores de futebol soam quase como um ultraje.

Por esse fio da meada, nada menos esperado de um regime totalitário do que legislar sobre cortes de cabelo. Em nome dos bons costumes, da tradição, do pensamento único, dá-lhe corte padronizado. Contra o monstro capitalista do consumo, o livre arbítrio, qualquer manifestação de individualidade, dá-lhe corte padronizado. Para que tudo fique exatamente como está, sem riscos de rompimentos da ordem, dá-lhe corte padronizado. Rebeldia no regime dos outros é refresco.

Mas sou otimista: quem sabe existe um grupo rebelde na Coréia do Norte que faz de seus pelos pubianos o que bem entende. Aliás, isso até me recorda uma antiga piada que terminava com a frase: Polícia Secreta de Fidel!

 

 

 

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