Coluna do Metro Jornal em 15.10.2013

Meu filho,

é chegado o tempo das despedidas. Tempo do adeus e de alguns possíveis nunca mais – estejas preparado. Tempo de ir além com tua história na bagagem.

Estás, agora, com justiça e mérito, embevecido com o frisante sabor da conquista: deixas para trás a base da tua formação – ensino fundamental e médio. Período em que não há saída: das estruturas celulares ao cálculo do movimento retilíneo uniforme, da tabela periódica ao feudalismo, do período neoclássico à progressão geométrica, tudo te foi ofertado e, igualmente, cobrado. Fase em que, pelo contato com o amplo conhecimento humano, colheste subsídios para as escolhas. É quando, quase sem perceber, preparamo-nos para voos mais audaciosos.

Do alto de onde estás, o horizonte se abre infinito. 360° de visão, vales e ventos. Caminhos e descaminhos. Destinos. A vertigem do tudo é possível amainada por uma direção a tomar – nem que seja uma rota que mudarás com o tempo. Até aqui, nós, teus pais, zelamos ao confiar tua formação à instituição de onde partes. Eis que a bússola migra para tuas mãos e, dela, precisarás tirar o sentido. Ponto de chegada transformado em plataforma de partida.

Deixar a escola é um pouco mudar de bairro, de cidade, de país. Por isso, em cada colega haverá mais do que um contemporâneo – serão para sempre conterrâneos. Digo mais: deixar a escola é o abrupto sair de casa de muitos irmãos. Gente com quem conviveste durante anos a fio numa rotina de encontros quase só comparável com a da família de sangue. Como de irmãos, conhecemos manias e esquisitices. Vimos perder dentes e ganhar espinhas no rosto; compartilhamos bons e maus momentos. O sorriso infantil jamais se apagará da face dos teus ex-colegas. Eles serão espelhos do tempo.

Os mestres, ao menos com os quais conseguiste ser mais próximo, guardarão enorme carinho por ti. E deles terás exemplos de vida – leve-os no coração. O chão que pisaste será para sempre dos teus pés. Os livros serão tua memória. As janelas, tua saudade. Guardarás os ruídos do ginásio, o cheiro da cantina, a luz do pátio. Podem passar trinta anos e, nem assim, o simples cruzar pela fachada da tua escola deixará o peito indiferente.

Toda partida nos faz assim, feliztristecidos. Abrace professores e funcionários. Apertado, longamente, abrace os colegas. Respire fundo os ares que serão antigos na tua existência ainda tão jovem. Colha a intensidade dos segundos regada com tuas lágrimas. Crescer é bom e, um pouco, dói também. Felicidades e boa sorte, meu filho!

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6 Respostas

  1. Marcos Ortiz

    Tenho lido teus textos e confesso-me surpreso: simplicidade. Faz tempo procuro alguém que seja sincero e deixe de falar abobrinhas.
    Valeu!

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    • rubempenz

      Nossa, Marcos: não sei se tens ideia do tamanho do elogio que me ofertaste! Simplicidade! Uau, obrigado.
      Abraços e espero seguir contando com tua leitura.
      Rubem

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  2. Maria Cecilia

    Querido Rubem, conseguiste, na crônica do dia 15/10, atingir um grau de sensibilidade pouco visto por ai. Minha filha Luisa está terminando o colégio este ano (colégio Marista Rosario), onde estudou desde o jardim. Foi linda e emocionante a identificaçao. Semana passada, no último encontro deles antes do final das aulas, ela, líder de turma desde o jardim, leu o teu texto… Não preciso te contar o que houve. Muita emoção.
    E, semana passada, quando falaste sobre o cavalheirismo, meu filho de 15 anos leu o texto. Identificação total.
    Obrigada pelas mensagens semanais. Podes ter certeza que lá em casa são muito bem quistas. Um grande abraço. Cecilia, Luísa e Guilherme.

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    • rubempenz

      Puxa, muito obrigado!
      São palavras realmente generosas as tuas Cecília. Servem como estímulo e fazem subir o compromisso que tenho (temos) com a palavra.
      Abraços, grato novamente,
      Rubem

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  3. Tiago Sozo Marcon

    Grande Rubem!
    Ontem à noite encontrei-me com colegas do meu primeiro grau na escola estadual Maguary, numa janta organizada pela web. Quase 30 anos desde aquele tempo. Tua crônica verbalizou muito do que senti, de como eu era, de como foi aquele tempo da escola…Parabéns pelo belo e tocante texto!

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    • rubempenz

      Tiago, senti no meu filho a alegria e a melancolia de mãos dadas. Sim: ele nunca mais será o mesmo aluno/colega da escola. Mas nunca deixará de ser. Grande abraço, muito grato, Rubem

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