Coluna de 05.11.13 no Metro Jornal

 

Reparar é um dos sinônimos de olhar. Carrega consigo, porém, outro ponto de vista: é um olhar crítico. Há alguns vícios de profissão que fazem com que pessoas reparem na postura dos outros (típico de professores de educação física), no sorriso (dentistas), no comportamento (policiais), no imponderável (psicanalistas), no óbvio (vendedores). O olhar que repara sempre descobre, ilumina, revela – reparando bem, todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina, ensinam Chico e Edu Lobo na bela “Ciranda da Bailarina”. Mulheres costumam reparar em homens e, estes, em mulheres. E há, claro, homens reparando em homens e mulheres em mulheres.

Aliás, em alguns momentos da vida, meninos e meninas reparam no mesmo sexo com muita acuidade em busca de identificação; miram modos e modelos a serem imitados. É quando vale lembrar de outra música, “Tradição”, na qual Gilberto Gil diz ter visto uma garota do baralho (uma garota do barulho). Mas descreve quase exclusivamente o rapaz que ela namora – como se veste, como se move e como compõe seu tipo. Enfim, como ele conquistou aquela moça do baralho. Típico.

Todo mundo repara e isso até tem seu lado bom: a preocupação nos deixa mais alertas, comportados, asseados. Quando entramos em uma casa e quem nos recebe diz para não repararmos na bagunça, das duas, uma: ou está mesmo o caos e essa informação refletiu em nossos olhos (viu sua desorganização por nosso olhar), ou tudo está no lugar e a ideia é chamar a atenção para esse fato. O pedido para não reparar é sempre o melhor convite para repararmos.

Homens reparam de modo mais seletivo. Mulheres, em geral, reparam em tudo. Raramente restringem o olhar: fazem uma varredura de 360°, analisam e, não poucas vezes, julgam. Das pessoas ao ambiente, das palavras aos gestos, nada aparece no seu campo de visão de graça ou sai dele sem uma análise. Com certeza foram programadas para serem assim pela natureza com um objetivo maior e mais profundo do que o fuxico. Ancestral, quem sabe. Estevão nunca pensara a respeito disso. Um erro. E muito maior tendo ao lado sua Celina.

– Estevão, viu aquela lá? – Celina cutuca com o cotovelo e aponta com o nariz.

– Qual? – olhando para todos os lados, disfarçadamente.

– Aquela de shortinho azul (dois números menor) e mini blusa branca (pra lá de indecente).

– Hum. Só agora que você mostrou eu vi, meu anjo.

O problema é que Celina não reparou apenas na mulher – reparou que Estevão havia reparado. Reparou também que negava. Mais: reparou que a outra reparara que ela tinha reparado que ele tinha reparado – o que piorava consideravelmente a coisa, tornando-a, enfim, irreparável.

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