Rufar dos Tambores

Depois dela, não apareceu mais ninguém?

Número 456

Rubem Penz

Nossos ídolos ainda são os mesmos

Belchior

As proféticas palavras de Belchior, amplificadas pela interpretação inigualável de Elis Regina, ecoam forte trinta anos depois da mais triste manchete: aos 36 anos, morre a maior cantora do Brasil. De lá para cá, inverti a condição de filho (17 anos de idade) para assumir a de pai com filhos de 15 e 11. E meus ídolos ainda são os mesmos. E as aparências não enganam.

Posso afirmar sem exagero que, à época, já sabia tudo de Elis, em plena adolescência. Acompanhava sua fase mais madura de perto, decorando músicas de Nascimento & Brant, Bosco & Blanc, Jobim e tantos outros mestres. Também curtia a reverberação vinda dos anos 1960 – época dos Festivais – e a fase setentista, estudando as divisões rítmicas de um dos mais elevados períodos da música popular brasileira (MPB). Mas não quero falar das coisas que aprendi nos discos. Quero contar como vivemos, e o que aconteceu conosco durante essas décadas de ausência.

Antes, é preciso dizer que Elis Regina sempre foi uma artista de vanguarda, mesmo quando, para avançar, era preciso gravar Nelson Sargento, Adoniran, Cartola. Precoce, cantou standards internacionais na infância. Ao completar 20 anos, foi a anfitriã dos maiores expoentes da música nacional (n’O Fino da Bossa, TV Record, ao lado de Jair Rodrigues). Com parcos 28, gravou Elis & Tom, um dos mais importantes álbuns da música em todos os tempos. Midas vocal, por ela passaram nossos principais compositores, transformando obras de autores iniciantes em clássicos de modo instantâneo.

Nos anos que seguiram sua morte, a crítica batia em uma só tecla: quem seria a nova Elis Regina? Mas, a cada nova cantora, parecia que Elis cantava melhor, como bem disse Nelson Motta. Lentamente a MPB perdia espaço nos auditórios, no rádio e na TV. Também deixava de encantar os jovens, atentos ao ascendente rock nacional. A música brasileira de qualidade passou a ser um produto de exportação, assim como os melhores grãos de café. Por fim, o deslocamento de nossos sentidos da cintura escapular para a cintura pélvica terminou com as ilusões: sem apresentar uma coreografia sensual, a MPB deixou de ser atraente.

Hoje, está claro: o fenômeno Elis não se repete, ou já teria acontecido. Mas as lágrimas que vertem sempre que escuto Saudade dos aviões da Panair, para ficar numa só música, não lamentam o fim de uma Era. Lastimam a demora em mais artistas assumirem posições de vanguarda, resgatarem a MPB da bunda, devolvendo aos holofotes a arte feita com e para o cérebro. Ou mesmo para o coração. O novo sempre vem, diz Belchior. Instrumentistas magníficos com 20, 30 anos estão por aí para quem quiser ouvir. Letristas e compositores, também.

Com o advento da internet, e o enfraquecimento das grandes corporações, talvez o sinal esteja aberto para os jovens. Apresentem-se! Vejo vir vindo no vento o cheiro de nova estação. Elis não voltará. Mas seu exemplo não há de nos abandonar.


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2 Comentários

  1. Rubens: Da escapula até a pélvis é um caminho traçado em piloto automático. Certamente não envolve o hipocampo ou qualquer estrutura cerebral. Em tempos de Michel Teló, temos que manter a fé, e algo novo há de vir. Do contrário; teríamos que retirar a música do campo da artes. Mas somos otimistas, quem sabe um Monte de Marisas reconstruam uma Elis. Eu estou tentando plantar uma em casa. Ela só tem 15 anos, mas sigo o conselho da Ana Carolina: “O vendedor de flores, ensina seus filhos a escolher seus amores.”
    Obrigado por nos fazer pensar!!!

  2. Montes de Marisas dá uma Elis: ótima essa!
    Sim, há muita gente , principalmente cantoras e cantores, além de músicos estupendos escutando e fazendo música de qualidade. Tenho fé!
    Abraços, Rubem

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