Número 468

Rubem Penz

Elas agora andam em bando. Não, não andam: voam. Voam para fora de casa e aterrissam nos bares em ruidosos bandos. São como enxames ocupando mesas que precisam ser movidas para dar lugar a mais e mais delas. Ninguém mais quer (ou tem) sossego. E falam, e riem, e olham para os lados, para frente, para trás. Dominam a cena. Sabem o nome dos garçons e fazem deles gato e sapato. Nos olhos dos moços, o espelho para medirem o potencial de sedução, para treinarem as artimanhas. Tudo com plena permissão.

Elas agora fumam parelho. Tragam com sofreguidão e soltam a fumaça para o alto. Fazem do vício outrora introspectivo um manifesto. Assumem o papel do menino que buscava no cigarro o passaporte para a vida adulta. Correm o risco do fósforo, sapateiam nas brasas. Celebram a antifertilidade das toxinas e da morte. Nem lembram mais se entraram nessa por querer ou por precisar. O fato é que sem precisar, parecem querer; sem querer, parecem precisar. O Ministério da Saúde as diverte.

Elas agora também bebem. E como! Umas com sabedoria, outras contra a natureza, na onda. Pagam suas contas, pagam para ver, por vezes apagam. Socorrem-se na vertigem, perdoam-se nos excessos. Já houve prisão, hoje há pressa. Sobem as apostas, blefam, blasfemam. Não poupam palavrões, ou se poupam, ou nos poupam. Ai do homem que resolva julgá-las. Guardam na ponta da língua a réplica mais ácida: os homens, em termos de álcool, ou de escândalos, pregam moral sem cuecas.

Elas agora rapinam. Miram, farejam, perseguem. Escolhem a presa e escolhem as armas. São num só tempo isca, armadilha e caçador. Gatas que não se contentam em comer a vítima – primeiro, brincam com ela. Manobram, chantageiam, manipulam. Chegaram lá de uma vez por todas: ao comando. Lambem o sabor da tirania, experimentam novas saciedades. E gostam. Eles também gostam.

Jogo empatado, elas por elas, bola ao centro.

Claro que elas não são todas elas. São algumas delas. Parecem muitas porque aparecem mais. Assim como eles também nunca foram todos desse jeito – ou todos iguais, por maior que fosse a campanha em afirmar a regra. O bom, o louvável, é que eles sempre puderam. Hoje elas também podem. Desejar está permitido. Ir ao limite está permitido. Ultrapassá-lo, também. Sem recriminações, cobranças, fogueira, patrulha, compaixão.

Talvez alguns ainda se choquem com tamanha mudança. Eu, não. Da mesa onde estou, apenas admiro. Ali estão elas por elas. Lindas. Felizes. Ou não. E até nisso estamos em igualdade.


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