Rufar dos Tambores

Espelho Mágico

Número 430

Rubem Penz

Ei, você que está sem tempo; que está sem saco; sem paciência: tudo parece pesar sobre seus ombros? Família, compromissos, dívidas, metas, microvarizes, macroeconomia… Tarefas de ontem para hoje ou, pior, de hoje para ontem. Enxaqueca, pressão alta, índices de colesterol e Dow Jones a preocupar.  Clientes, pacientes, impacientes… Você sabe onde foi parar aquele seu sorriso fácil, inocente e franco?

Ele está bem aí, no seu rosto. Só precisa do espelho certo para aparecer.

Eu já comecei a resgatar meu sorrir. Tenho sorte: retiro o espelho mágico de tempos em tempos da gaveta. Fui apresentado para ele faz dez anos e não pretendo esquecer jamais de sua existência. Descobri no olhar dos amigos de infância o reflexo do meu melhor sorriso. Aquele que tenho mais verdadeiro. Melhor: notei que todos ainda sorriem do mesmo modo diante dos meus olhos. E falam bobagens, recordam histórias, mostram a criança que jamais deixará de existir. Ao menos para quem a deseja viva.

Muitos espelhos me aguardam em outubro.

Há uma tradição na escola em que cursei o ensino fundamental e médio: a cada intervalo de dez anos, os formandos preparam uma festa. Nada de extraordinário, apenas música, algo para comer e beber, um salão enfeitado. Porém, a experiência de encontrar centenas de amigos de infância transforma completamente o cenário. Juro que nenhuma festa de casamento, batizado, Natal ou Ano Novo supera o índice de sorrisos do reencontro. Sorrisos-espelho.

Um encontro marcado comigo mesmo, aos dezessete anos (ou menos).

Nem todas as escolas incentivam este espírito de geração, de turma, de colegas para vida inteira. Sou alguém de sorte. Meus companheiros também. Assim que começamos a organizar o evento, os mais sensíveis se deram conta de que beberão o elixir da juventude: diante de nossa geração, somos todas as idades, inclusive (principalmente) as que ficaram bem para trás. Resgataremos apelidos, vamos nos lembrar dos professores, das roupas e bravatas. Mais: ofereceremos e tomaremos de volta olhares sobre um período formador de nossa história.

 Serão poucas horas que valem dez anos de espera.

Nesta década, desde o último encontro, a vida não parou: entre nós, houve sucessos e fracassos, muitas perdas – algumas tão doídas que brotam lágrimas enquanto escrevo –, nascimentos, formaturas, casamentos, separações, viagens de ida ou de volta. Assunto não faltará caso o presente entre na ordem do dia. Uns podem se surpreender com o menino tímido que hoje é um astro, ou com a moleca transformada em autoridade. Outros, talvez a maioria, reconhecerão no amigo de infância o caminho já traçado em tempos idos: tão bom em matemática, a carreira acadêmica caiu-lhe feito luva.

Do Colégio Anchieta para a vida, sem perder-se das lembranças.

Os espelhos de classe já circulam entre colegas: nossas fotos em 3 X 4 nas turmas, ordenados pelo alfabeto. Ali estou, trinta anos atrás. E os outros, até os que já não mais estão por aqui. Especialmente eles… Nem todos sorriem nas fotos. Mas posso apostar que estarão felizes ao entrarem no salão. Meninos e meninas. Crianças grandes que encontrarão tempo, saco e paciência para dar um nó na rotina e um golpe no calendário. Sorrir tão largo que, de ponta a ponta, alcançará de 1981 até 2011. Como por encanto.

E você: descobriu seu espelho mágico?


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8 Comentários

  1. Caro primo,
    fico feliz que tenhas a oportunidade de re-encontrar com seu passado. Gostaria de ter essa oportunidade tambem, entretanto, contento-me quanto, do nada, aparece um email na minha caixa postal de um colega ou amigo de muitos anos atras. Eh impressionante como a vida toma rumos diferentes daqueles que a 20 30 anos imaginavamos.
    Eh pena que nem todas as escolas incentivam esse relacionamento / atividade. Ao ler sua cronica lembrei me de meu chefe que 2 meses atras foi daqui para Inglaterra de volta a sua nativa Africa do Sul apenas para encontrar antigos colegas de escola por 1 dia em um encontro semelhante a este que voce relata. Posso estar enganado, mas nao existe circulo social “virtual” algum que substitua esta emocao. Mais uma vez, estou feliz por ti. Abracos.

  2. Paulo Henrique,
    Louvo os contatos virtuais. Mas eles não se coparam com uma festa assim, feita de dez em dez anos, e colocando na nossa frente pessoas que vimos crescer. É ímpar!
    Muito grato, abração, Mano
    PS.: nos encontros familiares isso também ocorre!

  3. Olá Rubem,
    Bela a tua crônica. Mexe muito comigo porque é um resgate que não tenho. Muito cedo arranquei minhas raízes escolares que nunca se firmaram pela profissão do pai que a quatro anos era nomeado para outra cidade. Entretanto, fiz parte de uma espécie em extinção, os radioamadores, origem da nossa amizade e do pai Rubão. Um forte 73 pra ti e para a teu tão esperado reencontro. Esis

  4. Esis, se te conheço, podes até não ter uma porção de lembranças de um só lugar (eu, no Anchieta, estudei de 1971 até 1981…). Mas tens colheradas de memórias de milhões de lugares e pessoas! Grande abraço, Rubem

  5. Agora me deixaste com mais vontade de ir ao Brasil para a nossa festa dos 20 anos do Anchieta! Adorei saber que estaremos comemorando décadas diferentes no mesmo ano.
    Um abração com saudades…

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