Coluna do Jornal Metro de 07.08.13

EU E OS AMIGOS DO MEU PAI

Há quem passe a vida inteira órfão de pai vivo. Distância ora física, ora emocional (quando não ambas). Algo capaz de calar afetos, cultivar mágoas, desconhecer. Um intransponível silêncio de palavras e abraços. Naufrágios. Solidão. Há, contudo, quem jamais deixe de ver e ouvir o pai. E há quem nunca, seja qual for a circunstância, abandone o filho. Nem mesmo depois da morte.

Quando nosso pai é um homem de presença marcante, o teremos para sempre por perto. Antes de tudo em nossos próprios gestos e valores, impregnados de seus exemplos. Mas também ao redor, pois, de semelhança em semelhança, criamos um ambiente de convivência com grande chance de repetir muitos dos passos trilhados pelo velho. Inadvertidamente, até.

Noto isso um pouco ao encontrar amigos. Não os meus: os amigos do meu pai. Aliás, o que não chega a ser difícil, pois sua capacidade de agregar pessoas, nascida de uma franqueza desarmada, de uma generosidade rara e de um humorado magnetismo, tornou-o alguém com muitos círculos à sua volta. E cada amigo do velho Rubinho é meu amigo também. Todos os que mereceram sua simpatia, contam com a minha; nos quais ele confiava, dou crédito; a quem se socorria, sei que posso contar se necessário for.

Pode parecer lugar comum, mas, ao me deparar com os amigos do pai, nem precisamos evocar seu nome para trazê-lo à conversa. Sei que olham para mim com saudade dele e, no mesmo instante, sou herdeiro direto para o carinho. Sabem que olho para eles com o mesmo sentimento – em suas vidas reverbera a presença do meu bom pai. No instante, é como se ele estivesse ali ao nosso lado, sorrindo, acompanhando o assunto. Como se estivesse, não: ele verdadeiramente está! E é sempre uma felicidade reencontrar o velho.

Triste, fico com a notícia da morte de mais algum dos amigos do meu pai – ainda há poucos dias soube de mais um que se foi. Um a menos para lembrá-lo, um a mais para ser lembrado. Experimento outra vez nossa separação, tenho vontade de chorar. O pai da gente vive nos amigos e, também, com eles morre novamente.

Dou valor relativo às datas comemorativas. O Dia dos Pais faz com que eu recorde do meu – eis a prova aqui registrada. Mas não preciso delas. Gosto mais da surpresa de cruzar com um amigo do velho nos corredores do supermercado, em algum parque, até mesmo no trânsito. E, quando os filhos perguntam quem é, respondo: este é um grande amigo do avô de vocês! Assim, resgato neles a lembrança. Referencio. Fortaleço os laços de memória. Ensino que se pode sobreviver à morte. Transformo saudade em sorriso.

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