Rubem Penz

Há uma nova estratégia para angariar militantes na política brasileira com mais segurança, denominado exame oftalmo(i)lógico. Trata-se de uma ferramenta extremamente útil para medir a visão seletiva do cidadão, pensada para evitar sobressaltos durante os encontros partidários. Sabe como é: pessoas com visão ampla põem em risco os projetos de poder. Daqui a pouco, o número de saias justas será tão grande a ponto de inviabilizar reuniões, plenárias, comícios, e as coisas fatalmente precisarão mudar.

É um exame bem simples realizado em três etapas. Início: ao candidato a militante é apresentada uma cartela em que, no alto, há a palavra “CORRUPÇÃO” bem grande (tipo uma manchete de jornal). Logo abaixo, algumas letras, todas rigorosamente do mesmo tamanho:

PSDB – PT – PMDB – PP – PDT etc.

Faz-se a seguir uma pergunta: quais letras você consegue enxergar nesta cartela?

Caso o candidato seja capaz de ler todas as elas, estará automaticamente desclassificado. Aos que lerem umas e não virem as outras, será apresentada a segunda cartela. No alto, em letras garrafais, a expressão “SABIA”. Logo abaixo, alguns nomes escritos em tamanho diminuto, mas idêntico:

Lula – Aécio – Cunha – Dilma – Temer – FHC etc.

O exame prossegue com nova pergunta: quais nomes estão escritos na cartela?

Os candidatos que tiverem o discernimento de ler todos os nomes serão dispensados – obviamente não veem as coisas com a estreiteza necessária para viver com plenitude a militância. Aqueles que lerem uns nomes, outros não, seguem para a derradeira plaqueta. No alto está grafado “SÉRGIO MORO”. No espaço abaixo, absolutamente nada está escrito.

Ao que é feita a última questão: qual (ais) adjetivo (s) você consegue ler nesta cartela?

Nas mãos do examinador, uma tabela de 1 a 20 com diversos termos que variam do total louvor até a completa difamação. Dependendo da pontuação do candidato, em combinação com as respostas anteriores, ele será encaminhado para um dos tantos comitês com as variadas siglas nacionais. Caso rasgue, morda ou pise em cima do papel, outros endereços. Agora, se o candidato disser que não há nenhum adjetivo escrito na cartela, fim da linha: ele padece de grave sinceridade, o que, no momento, coloca em risco a sobrevivência da política partidária.

Como eu soube do exame oftalmo(i)lógico? É que fui convidado a aplicar num grupo piloto para comprovar sua eficácia. Adianto que, ao menos na minha experiência, funcionou direitinho.

 

Crônica publicada no Metro Jornal Porto Alegre em 20.06.2017

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