Número 476

Rubem Penz

O amor não é alimento, mas nenhuma refeição jamais nutriu e fez tanto bem quanto aquela preparada com carinho verdadeiro. O amor não ergue paredes, mesmo que inexista ambiente mais acolhedor do que qualquer um onde nos espera o abraço de afeto. O amor nada ensina, treina, instrui ou capacita ao mesmo tempo em que é ele a única lição que jamais deveríamos deixar de aprender e ensinar.

O amor não esquenta – sim, roupas e cobertores ainda serão imprescindíveis durante o inverno. Agora, não haverá pés aquecidos sem antes acalentar a alma. O amor não nos leva daqui para lá, ou de lá para cá: ele nos eleva. O amor nunca foi o responsável pelas cifras na conta bancária (boas ou más). Ao contrário, por ele, ou em sua promessa (concreta ou vã), há quem demandaria fortunas, contrairia dívidas ou aplicaria calotes.

Ninguém aprende andar por amor: quem manda em nossos instintos é a necessidade. Porém, nenhuma caminhada será extenuante ou impossível quando motivada pela paixão. O amor não tem a faculdade de transformar sonhos em realidade – com ele, a realidade é que ganhará ares de sonho. O amor jamais será fonte de status ou projeção social: seu alvo é a dignidade, a virtude, a transcendência.

O amor jamais será causa de sofrimento, sacrifício ou dor. Com ele, toda contrariedade será superada mais suavemente. Dói, sim, o desamor. Um é lupa para a tolerância, o outro faz crescer as diferenças a ponto de deixá-las incontornáveis. Eis um dos maiores perigos do amor: seu poder anestésico pode até causar a morte heroica e solidária. Eis um dos maiores perigos do desamor: sua intolerância ao sofrimento pode até causar a longevidade covarde e egoísta.

Por tudo isso, e pelo que mais e melhor nos disseram os poetas, viver sem amor é passar batido pela vida. Mas só há um amor que podemos cultivar e fazer crescer: o nosso. Primeiro, para consumo interno – amor próprio. Depois, como dizem os profetas, para distribuir a quem esteja ao nosso redor. Os demais amores, no máximo, poderemos ter na base das trocas. E, nessas trocas, o que damos e recebemos? Apenas sementes de amor – promessas que também dependerão de interno cultivar.

A todos, e a mim também, desejo uma alma fértil e um amor vicejante.


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4 Respostas

  1. Mário Lúcio

    “Mas só há um amor que podemos cultivar e fazer crescer: o nosso. Primeiro, para consumo interno – amor próprio.”
    Gostei: original, inteligente e revigorante…

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  2. Anonymous

    Olá, Rubem!
    Sensacional tua crônica! Muita sutileza, perspicácia e sensibilidade.
    E verdadeira!
    Abraços,
    Jussara Lucena

    Responder

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