Rubem Penz

Hoje ainda, se der, leve as crianças ao Centro Histórico de Porto Alegre. Mais tardar até o final da semana. Melhor: estabeleça uma rotina, resgate uma tradição, pense a longo prazo. Isso será o mínimo esforço individual para uma guinada gigantesca de nossa capital que, hoje, ruma para sua falência – em todo organismo, quando se deixa de irrigar determinado órgão, ele falece. E o sangue aqui é o amor (também a economia, mas um será consequência do outro).

Leve as crianças ao Centro e mostre a elas a cidade viva e pulsante. Segure firme suas mãos e alerte: cuidado, é perigoso; prestem atenção, fiquem perto de mim. Não pensem que o medo nasceu hoje: já era assim no final dos anos 1960, eu de mãos dadas com minha mãe. Deixa que vejam adultos com pressa, a nem sempre amistosa disputa por espaço entre automóveis e pedestres, o rumor competitivo dos lojistas e dos ambulantes, o mendigo, o artista popular. E, sem o deslumbre dos turistas, comente – como quem não quer nada – sobre um prédio ou outro contando casos antigos.

Não estou louco, não – jamais estive tão lúcido. Por exemplo, eu, menino, ouvia falar no “footing” na Rua da Praia, momento de flerte entre rapazes e moças. E dos inesquecíveis cafés no Chalé da Praça XV, nas confeitarias, no Clube do Comércio. Sabia por intermédio dos protagonistas o quanto era importante estar bem vestido para frequentar os grandes cinemas de calçada, as praças, as lojas – ir ao centro para ver e ser visto. Naquele tempo, homens com chapéus e charutos se agrupavam diante da Livraria do Globo e da Galeria Chaves para falar de política ou futebol. E cumprimentavam e eram saudados pelos passantes. Toda cidade parecia se conhecer.

Interessante: para mim, não havia mais sinais visíveis de glamour. Não aquele das décadas de 1930, 40 e 50, tempo em que os metros quadrados do lugar eram cenário obrigatório (ou quase único) da vida dos porto-alegrenses abastados. O centro da minha primeira infância abandonara a província e prometia uma metrópole. Eu estava lá para compras, para um sorvete no Mercado Público, para uma consulta médica, talvez. Os bondes se despediam e, sobre os trilhos ainda aparentes, havia terminais de ônibus. Panorama grandiloquente e assustador, mas a mão firme da mãe guiava meus passos. Exatamente da forma como peço aqui: leve as crianças ao centro! Um bom começo é a Feira do Livro. Semana que vem, retomo a conversa a partir de 1970.

Crônica publicada no Metro Jornal em 32.10.2017

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