Rubem Penz

O que vou contar aconteceu faz tempo, mas ando passando uns dias propícios para recordações. Estava numa casa de praia sem muita leitura quando assaltei uma prateleira cheia de revistas velhas. Uma Manchete chamou minha atenção. Em sua capa, garrafal, o título: Brasil 80. Também uma foto e a chamada para a matéria central. Naquele momento praiano já estávamos a uma distância confortável dos anos oitenta. Os mesmos que foram íntimos conhecidos meus, afinal ali cruzei da adolescência para a idade adulta – período de revoluções internas. A revista, salvo engano, era de janeiro 1980 e – surpresa! – tudo que exaltava se referia aos anos 1970. Das roupas aos cabelos, das teses aos hábitos, em cada personalidade ou objeto, pouco dizia respeito à década vindoura.

O Brasil 80 nada mais era do que o ápice do Brasil 70. Uma espécie de síntese dos anseios de uma sociedade que fora libertária e engajada, mesmo que a reportagem não falasse necessariamente de política. Naquele ano zero da nova década, eram raros os signos e conceitos elencados que viriam a se confirmar a seguir. Algo como tentar adivinhar a curva adiante olhando no retrovisor. Pudera: nenhum dos filmes que marcaram minha geração haviam estreado; qualquer das nossas músicas tocara no rádio, nem os programas de TV tinham virado febre. O conteúdo estava preso à estética e aos movimentos daquilo que, aí sim, dava para saber o que era: a década anterior.

Recordo disso porque agora completo ano cheio. Cinquenta (escrevi por extenso para dar a dimensão exata da coisa). E há quem tenha a indiscrição de me perguntar como me sinto na qualidade de cinquentão. Pois respondo: estou no ápice dos meus 40 anos! Sou uma espécie de síntese da década anterior, período bastante representativo na vida de um homem. Tempo em que as escolhas foram testadas e confirmadas (ou não). Tempo em que os excessos cobraram a conta e os bons hábitos deram seus frutos (talvez). Tempo em que as velas ainda podiam ser confortavelmente ajustadas para que o porto o qual me espera seja aquele no qual encontrarei minha plenitude (tomara).

Segurem, enfim, a curiosidade sobre minha atual condição por uma década, extensivo a todos os amigos e amigas desta geração. Ninguém por aqui está com pressa para saber as dores e as delícias que a quinta dezena, enfim, promete. Quando completarmos sessenta, o que há de demorar bons anos, daremos notícias frescas. Como na revista que ainda pode estar lá na praia, toda foto que baterem de mim neste momento revelará tão somente o Rubem 40. E olhe lá…

Crônica publicada em 19.08.14 no Metro Jornal

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