A COBRAR

 

Juarez, cinqüenta e dois anos, engenheiro de vendas, casado, dois filhos, enfarta com as chaves do carro na mão. A morte não estava em seus planos de, digamos, curto prazo. Ainda mais naquele dia: retornaria para casa com uma notícia fundamental. Por isso, faz de tudo para ser recebido em instâncias superiores.

– Com licença, eu gostaria de falar com o senhor…

         Pedro olha o recém chegado por cima de seus óculos de leitura. Dá um longo suspiro e atende com a santa paciência:

– Você diz, o Nosso Senhor?

– Não, não: com o senhor mesmo. – o homem se achega, confiante. – Me chamo Juarez e lhe indicaram para resolver o meu problema.

– Desculpe-me, filho – explica o Santo – aqui não há mais problemas.

– Justo! Este é o caso: se eu acho que tenho um problema, é a prova de que não estou aqui, como dizer, por inteiro.

         Nuvem adentro, já ao lado de Pedro, Juarez dá claros sinais de sua determinação. O Santo abandona o livro e resolve atendê-lo com meio sorriso.

– Ok. E qual seria este seu problema?

– Eu preciso falar com a minha esposa, digo, viúva – apontando para a Terra.

Pedro é categórico:

– Impossível! – desviando o olhar de volta para a sua leitura. – É contra as regras.

– O senhor não entendeu: é importante! Quando morri, tinha algo a dizer que mudará o destino da minha família! E eu pago bem!

– Filho – Pedro volta-se para Juarez em tom de advertência – é você quem parece não entender este seu novo momento… Além do mais, está esquecendo de um detalhe mortal: seu dinheiro ficou todo do lado de lá – e estende a mão para baixo.

Quando São Pedro retorna ao livro para dar o assunto por encerrado, resmungando contra o anjo que deixara o novato passar, Juarez tenta a última cartada:

– Então ligamos a cobrar! Isso: Ana Lúcia jamais recusaria a minha chamada!

 

Ana Lúcia, quarenta e nove anos, contabilista, viúva, mãe de dois filhos, passeia na calçada com Marvin, seu Yorkshire. Toma um tremendo susto ao ser abordada, de sopetão, por uma cigana:

– Madame, madame: Eleonora vê o passado, o presente e o futuro… E alguma coisa diz para Eleonora que a senhora precisa saber de algo muito, muito importante! – uma pausa, olhos nos olhos, voz grave: – É sobre o falecido…

Marvin, latindo e avançando nas pernas da cigana, precisa ser contido no colo. Ana Lúcia tonteia a ponto de balançar em suas convicções: como saberia tal mulher da recente morte de Juarez? Mas, em um resgate de lucidez, pergunta:

– Hummm… e como é que é isso?

A Cigana estende suas mãos em um gesto dúbio, talvez para pegar nas mãos de Ana Lúcia e ler o futuro, talvez para receber adiantado:

– São duzentos reais…

 

São Pedro recoloca o telefone no gancho. Olha condoído para Juarez.

– Sinto muito, filho: desligaram.

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