Rufar dos Tambores

Número 235

SUA MAJESTADE, O PLURAL

 

Na crônica, temos a tentação de julgar que o leitor sempre concorda conosco. Peço paciência, mas vou escrever a frase outra vez: Na crônica, tem-se a tentação de julgar que o leitor sempre concorda com autor. E, desculpe – é importante –, ainda de uma terceira forma: Na crônica, tenho a tentação de julgar que o leitor sempre concorda comigo. Nas três orações, a mesma mensagem. Nelas, mensagens muito diferentes.

 

Analisando as três frases gêmeas do primeiro parágrafo, leitor atento verificará que o grau de exposição do cronista é crescente. Na primeira oração, com o uso do plural majestático (temos), o autor se esconde na multidão, chamando todo mundo para as fileiras do seu argumento. E, como é comum em uma horda, tudo o que é feito – ou dito – será diluído, para o bem e para o mal. Esta é a forma mais segura de construir um ponto de vista e, por isso, a tentação primeira do escritor. Só tem um problema: é uma pequena mentira. Ninguém passou ao cronista, a priori, uma procuração de plenas opiniões.

 

Na segunda maneira de escrever, o artifício utilizado é o da impessoalidade (tem-se). A opinião é de alguém, talvez do autor, ou de um terceiro que falou para ele, ou mesmo do leitor disposto a pegar o bonde andando. Digerida a premissa – falsa ou verdadeira, não importa –, fica permitida a elaboração de um argumento qualquer, libertando o autor para a construção de sua retórica. A engenhosidade desta configuração faz o leitor se encantar com o cronista. “Nossa, ninguém falou isso antes!” – pensará. E aí está o problema: este “ninguém” que falou antes é o escudo do autor.

 

A última forma de oração lá de cima evidencia a primeira exigência do gênero literário crônica: o discurso na primeira pessoa do singular (tenho). Ali está o autor, aquele que assina o texto, em busca de sua particular argumentação. Também, quem sabe, mirando a concordância do leitor (se bem que muitos cronistas tornam seus leitores fiéis pelo estranho caminho da discórdia). Exposto, sincero e aberto ao contraditório, o verdadeiro cronista contabiliza o proveito e o prejuízo de quem se arrisca em muitas opiniões. Às vezes, soa arrogante. Mas, raramente, covarde.

 

De todos os cronistas que acompanho, admiro especialmente aqueles que constroem seus textos com base na opinião singular. Mesmo antes de me dedicar à escritura do gênero – e a seu conseqüente estudo –, já o fazia de modo intuitivo. Estaria mentindo se dissesse que nunca me vali da impessoalidade ou do confortável plural majestático. Pior: tenho uma obra publicada para me denunciar. Há, sim, momentos em que estas formas são adequadas. O problema está em usar demais, ou mesmo tão somente, estas estruturas espertas.

 

Todavia, não posso deixar de terminar o texto sem falar naquele que, na minha opinião, é o pior tipo de cronista. O que coloca as mazelas do mundo no reino de sua majestade, o plural: não deveríamos fazer isso, agimos mal desta ou daquela forma, erramos ao pensar assim ou assado. Depois, com todos nós sob o manto do tal monarca, o autor tira seu corpo fora e oferece o bom caminho na primeira pessoa, transformando-se em Robin Hood, o arqueiro das flechas de auto-ajuda.

 

Leitor, cuidado com o cronista que usa e abusa do plural majestático. Ele pode ser o mesmo que, no estádio de futebol, atira o rádio de pilhas no bandeirinha, olha para o lado e diz: estamos muito alterados hoje, não é?

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