Rufar dos Tambores

Número 278

SEM TEMPO A PERDER

“Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos
Tempo Tempo Tempo Tempo num outro nível de vínculo
Tempo Tempo Tempo Tempo”

Caetano Veloso
Eusébio não gostava de perder tempo. Por isso, deixou de ir ao supermercado: mandava a lista de compras para o gerente via computador e, também assim, pagava a fatura. Ganhava os quinze minutos de ida, os vinte de passeios pelos corredores, os cinco da fila do caixa e os quinze minutos de volta. Contando os deslocamentos entre o apartamento e a garagem, a soma alcançava uma hora.

Érika também não gostava de perder tempo. Por isso, jamais almoçava em restaurantes: pedia para um colega de escritório trazer um lanche quando voltasse ao trabalho, mandando o dinheiro com ele. Ganhava os quinze minutos de ida, os vinte diante da mesa de refeição, os cinco na fila do caixa e os quinze minutos de volta. Contando os deslocamentos entre seu cubículo e a portaria do prédio, a soma alcançava uma hora.

Escobar era outro que não gostava de perder tempo. Por isso, parou de freqüentar o estádio de futebol: assinou um pacote de TV que contemplava todos os campeonatos da primeira, segunda e terceira divisões nacionais – fora os certames estrangeiros. Ganhava os quinze minutos de ida, os quinze de volta e, na melhor das hipóteses (jogo de meio de semana no início do campeonato regional), os trinta minutos de antecedência para sentar-se em um bom lugar da arquibancada. Logo, a soma mínima alcançava uma hora.

Sem falar em Elisa, que odiava perder seu precioso tempo. Por isso, abandonou o hábito de ir ao cinema: passou a alugar filmes na volta do trabalho, deixando-os na caixa de coleta da locadora na manhã seguinte. Ganhava os quinze minutos de ida, os cinco procurando uma vaga no estacionamento, outros cinco entre o carro e a fila do ticket, mais os quinze minutos de volta. Contando o tempo de segurança para entrar no shopping com a antecedência necessária para garantir o ingresso, a soma alcançava uma hora.

Egon e Edna, ao contrário, não viam tantas vantagens assim em aproveitar as facilidades da vida moderna. Muito menos se deixavam cair na tentação de virar workaholics, vidiotas ou ermitões. Conheceram-se diante de uma prateleira refrigerada de iogurtes, quando trocaram impressões sobre uma ou outra marca, sorrisos e números de telefone. Passaram a almoçar juntos de vez em quando, aproveitando que não trabalhavam muito distante um do outro. Descobriram afinidades insuspeitas, como o gosto por filmes de ação e cores clubísticas. Viram a amizade evoluir para uma paixão tranqüila e acabaram juntando as escovas de dentes.

Um dia, enquanto o casal aproveitava para tomar um café antes da sessão de cinema, Egon falou que sentia saudade do pessoal com quem costumava se encontrar. Tinha dois grandes amigos: Escobar e Eusébio, que nunca mais vira. Parecia que nem moravam na mesma cidade. Edna também fazia parte de uma turma muito ativa que, com o tempo, foi perdendo o contato. Ressentia-se da distância com Elisa e Érika, parceiras inseparáveis outrora. Só tinha notícias delas em mensagens de Natal e aniversário.

Egon e Edna repudiaram a idéia de perder os velhos amigos de vista e decidiram tomar a iniciativa. Tentaram marcar um encontro, um jantar, um cineminha que fosse. Deu em nada: eles outros alegavam uma eterna falta de tempo. Muita insistência e poucos resultados depois, o casal percebeu que a proposta era completamente inviável. Por fim, desistiram. Afinal, ninguém nessa história parece gostar de perder seu tempo.

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