Rufar dos Tambores

Número 298

TRÊS DESEJOS

Trata-se de um clássico: eu estou caminhando absorto pelas areias de uma praia qualquer, com os pensamentos boiando entre a segunda e a terceira rebentação, quando o dedão chuta um objeto cortante. Depois de um palavrão para aliviar a dor, de reclamar da falta de limpeza no litoral e de maldizer a sorte, verifico se está sangrando. Porcaria, está! Já com a vacina antitetânica no horizonte, eu resolvo averiguar o objeto mal sepulto na areia. É uma lâmpada. Nem incandescente nem fluorescente. É uma do tipo maravilhosa, parecida com um candelabro.

Descrente, eu junto o artefato e esfrego a camiseta em busca das três palavras mágicas do capitalismo: “made in China”. Porém, ao invés de descobrir a origem da lâmpada, uma fumaça branca e inodora revela o surgimento de um gênio. Um do tipo padrão, com roupas bufantes e transparentes, turbante e barba ao estilo Clóvis Bornay. E, como primeiro sinal de genialidade, ele fala comigo em português, sem o menor sotaque e na velocidade de um anunciante das Casas Bahia. Conta que foi ali aprisionado por um mago oriental há milhões de anos, que a maldição só seria quebrada no caso de a lâmpada ser friccionada por um tecido com 35% de polyester e que, em sinal de gratidão, me concederia três desejos.

Imediatamente, eu procuro os sinais de câmeras e microfones ocultos. Olho bem para o gênio para reconhecer o ator famoso por detrás daquele disfarce. Já imagino para qualquer momento a chegada daquela menina da produção com um contratinho padronizado para eu autorizar o uso de minha imagem na TV. Acredito piamente na oportunidade dos meus trinta segundos de fama ao pagar um mico em rede nacional durante algum programa de domingo. Por isso, e apenas por isso, topo continuar a conversa. E tento fazê-la render.

Pergunto, só a título de curiosidade, se os pedidos estariam sujeitos a algum patrocinador. Seu desejo será uma ordem, meu Amo, responde o gênio com uma mesura, como quem não entendesse a desconfiança. Ganho tempo: poderia ser algo só para mim, ou precisaria ser um pedido para a humanidade? Seu desejo será uma ordem, meu Amo, responde o gênio, repetindo o gestual com a ensaiada naturalidade de um guia turístico mirim. E o prazo de validade – quero saber – seriam pedidos perecíveis? O gênio devolve a questão com a mesma frase de sempre, curvando-se com suavidade. Percebo que não avançarei mais um segundo. É chegado o momento dos pedidos. E, claro, devem estar gravando.

Como em um rasgo de lucidez, uma revelação, um luminar, me dou conta de que não estou na praia coisíssima nenhuma. E meu dedão do pé está intacto. A moça da produção – morena, cabelos ondulados, vinte e poucos anos, jeans e camiseta branca, sandália rasteirinha, óculos – tampouco virá. Estou, isto sim, sentado diante de uma tela de computador, escrevendo a crônica da semana. Porém, de modo estranho, o gênio não some, aguardando meus três desejos. Desejos para 2009. E eu não sei o que lhe pedir.

Você, na mesma situação em que estou, teria condições de fazer três pedidos com sabedoria? Pergunto na hipótese de ser atendido de verdade, por este Clóvis Bornay das arábias que paira diante de mim, ou por qualquer outra força mágica. Se positivo, parabéns! Eu confesso que estou perdido, mesmo sabendo que, da feitura dos pedidos, depende o final do texto. Então, não tendo remédio, vamos lá:

Que em 2009 sejamos justos. Que em 2009 sejamos carinhosos. Que em 2009 sejamos agradecidos.

P.S.: e o gênio, safado, sem garantia nenhuma de vir a me atender, agora está indo embora de mãos dadas com a moreninha da produção…

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