Rufar dos Tambores

Número 312

RESSURREIÇÃO

O orador prepara-se para fazer seu pronunciamento. Traz consigo um ar grave, solene. Apóia um pequeno volume de papéis no púlpito. Pousa suas mãos sobre as folhas e mira a plateia por alguns segundos. Nisso, um bêbado, ruidoso, entra e senta-se lá no fundo. O homem espera até que ele esteja acomodado. Limpa a garganta. Toma ar. Começa:
– Nosso tempo se mostra menos esperançoso do que outras épocas. Mas, creiam, houve alguns momentos em que a humanidade pareceu correr mais e maiores riscos ‒ pausa dramática. ‒ Mesmo assim, apesar dos sacrifícios, fomos salvos. E hoje, como ao contrair uma dívida, precisamos renovar nossa crença no amanhã. Nenhuma outra época é mais apropriada.
Neste momento, o orador tira do bolso do paletó um ovo. Olha para ele, gira, examina. Mostra-o a todos como quem exibe um trunfo. O bêbado, lá do fundo, diz:
‒ Já sei! É um ovo! – esperando ser ovacionado.
A assistência olha para trás e murmura em desaprovação. O bêbado desdenha com as mãos. O orador retoma sua linha de raciocínio.
– O ovo – ensina ele – está aqui para nos servir de metáfora. Ele representa a vitória da vida sobre a morte. A célula a partir da qual tudo se cria. Não importa o quanto tenhamos sofrido, o quanto estejamos abalados, diminuídos, carentes: a partir de um simples ovo, tudo o que é capital pode ressurgir. Uma vida nova, em outras condições, em outro cenário. Mais favorável, é claro!, por mais sombrio que sejam os escombros.
O bêbado ergue o braço pedindo um à parte. O orador atende com educação.
‒ Já sei! – fala, enrolando a língua. – O senhor quer nos chocar!
A plateia volta a protestar com mais veemência. O bêbado ri de sua esperteza. O orador agradece com meio sorriso, devolve o ovo para dentro do bolso, junta um cesto que estava no chão, atrás de si, e segue:
– Quando compartilhamos esse sentimento de renovação, é como experimentar a própria ressurreição. Isso, mais do que nunca, é uma garantia a ser repartida. Porém, é apenas o primeiro passo…
– Já sei! – levanta-se o bêbado. – Nunca devemos pôr todos os ovos no mesmo cesto!
Agora, já se escuta mais do que um burburinho na assistência. Não fosse um local civilizado, alguém teria partido para cima do inconveniente alcoolista. Mas o orador, demonstrando uma paciência monástica, pede silêncio e serenidade a todos. E aproveita o gancho:
– Vejam bem: crises como esta que experimentamos, meus caros, é tudo o que desejam os que não professam de nossas crenças.
Os ânimos, enfim, acalmam-se. É quando o orador retira do cesto um coelhinho branco. O bêbado levanta a mão novamente, mas não é atendido. Com o coelho no colo, e o cesto devolvido ao chão, o orador pergunta:
– E o coelho, qual a metáfora que nos apresenta o coelho?
O bêbado acena com insistência, querendo responder. O orador não lhe dá oportunidade, seguindo:
– Eu lhes digo: a fertilidade. A criatividade. A novidade. Crescer para multiplicar!
– Já sei! – salta o bêbado, sem se conter. – Já que é sacanagem, vamos nos f…
– Basta! – altera-se o orador. – O senhor passou de todos os limites. O tema de que estamos tratando é muito sério. É muito caro para a sociedade. Posso dizer… sagrado, até!
– Eu já sei! – comemora o bêbado, ainda de pé e abrindo os braços. – É a Páscoa!
– Óbvio que não! – responde o orador. – Estamos em um Seminário de Economia. Discutimos aqui as alternativas para a grave crise financeira internacional.
– Ih, então já sei… – lamenta o bêbado, mantendo os braços erguidos. – Vocês salvam a própria pele, e cruz vai sobrar para mim.
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