Rufar dos Tambores

Número 347

AMIGO SECRETO

Um dos mais tradicionais ritos de final de ano é o amigo secreto. Em resumo, um sorteio para definir a quem presentear entre familiares, colegas de trabalho, amigos, vizinhos ou qualquer outro grupo que pretenda festejar Natal e Ano Novo. Prenúncio de desastre, ele é adotado pelo mesmo motivo por que optamos pela democracia: dos males, continua sendo o menor. Comprar presentes para todos é muito caro. Para ninguém, antipático.

Desde a primeira vez em que participei de amigo secreto, assisti inúmeras tentativas de aperfeiçoar o método. Por exemplo, estipular um valor a ser despendido. Fruto do nobre intuito de evitar constrangimentos entre humildes e abastados (ou domar avarentos e perdulários), o parâmetro monetário já apresenta defeitos na largada: nunca há consenso. Uns acham impossível comprar algo de qualidade por R$10,00, outros preferem morrer a gastar R$50,00 nessa bobagem. Deixar em razoáveis vinte ou vinte e cinco reais pode até funcionar. Mas sempre aparece aquele maldoso fofoqueiro dizendo que determinado presente está por R$9,90 na loja da esquina, e olhe lá!

Outra forma de fazer o amigo secreto menos acidentado é o uso da lista de presentes. Nela, há um quadro em local público e, ali, cada um coloca o que gostaria de receber. Gravata, saleiro, tesoura de jardim, caneta tinteiro, xícara decorada… Aí começam a perverter: Grazi Massafera, Ferrari, laptop, a paz mundial etc. Mesmo quando todos levam a lista a sério, o risco de receber um presente horrível permanece. Uma vez coloquei na lista: despertador. Pensei que seria algo útil, fácil de encontrar, barato e com mínimas chances para o azar. Ganhei um relógio de mesa de ursinhos, daqueles que parecem esculpidos em durepoxi. Até hoje fico intrigado: devia ter uma mensagem subliminar embalada no mesmo pacote. Ninguém dá um presente desses sem segundas intenções…

Porém, o mais bizarro amigo secreto que já soube foi em uma empresa cuja gerente de RH era tão esforçada quanto inconsequente. Por uma teoria maluca, decidiu fazer um amigo secreto temático. Todos deveriam presentear os colegas com roupas íntimas. No quadro de dicas, as seguintes alternativas: convencional, moderno, avançado, sexy ou fetichista incorrigível. Depois, P, M, G ou XG. Frisson geral, comentários ruidosos, promessas de sacanagem… A empresa era só alegria enquanto dezembro avançava. Era de se tirar o chapéu para a RH, pois ela conseguira um ambiente descontraído em uma época do ano cheia de stress. Todos achavam graça, menos o Durval.

Durval recém havia começado no emprego e era muito, muito tímido. Não tinha coragem de perguntar quem era Gessy, que nunca encontrara em sua rotina. Com certeza trabalhava, como ele, direto em serviços externos. E lá estava no quadro de dicas, supostamente marcado por Gessy: sexy, M ou G – quem haveria de duvidar? Durval, filho temporão e solteiro, não fazia ideia de como escolher uma boa lingerie. Encheu-se de coragem e comprou um baby-doll azul turquesa. Tamanho G: não queria parecer vulgar.

Quando o Dr. Gessy, diretor da empresa, foi saudado ao microfone, Durval pensou que fosse enfartar. E, segundo o protocolo, o chefe precisava ser o primeiro a receber o presente (voltaria para São Paulo em poucas horas). Durval subiu ao palco e improvisou: disse que comprara o presente pensando em quanto o Sr. Gessy apreciaria retirá-lo de sua companhia amorosa. Aberto o pacote, todos passaram mal de tanto rir. O próprio Dr. Gessy se contorcia. Depois do surto hilariante, aos sussurros, começou um bookmaker para descobrir se o pobre Durval resistiria no emprego até o Ano Novo.

Em dois dias saiu a nota de demissão: foi-se a gerente de RH. Durval se mudou para São Paulo, promovido ao escritório central. Hoje é o braço direito do Dr. Gessy. Sem dúvida, o danado acertou na cor.

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2 Comentários

  1. Oi Rubem, bela crônica natalina!
    Parabéns!
    Pois é, essa indefectível troca de “amigos secretos” é hilária mesmo. Geralmente o “amigo” sai pra quem não é nem muito amigo e muito menos secreto, né mesmo? E a gente, em geral, tem a maior mão-de-obra (ainda é com hífen? tentando imaginar o que vai dar pra aquele chatonildo que não pôs na lista o seu regalo.
    Se nas firmas já é constrangedor, imagina nas famílias. Na minha – que é uma tropa – nem se fala. Pra começar, assim qeu são sorteados os “amigos” todo mundo – inclusive eu – já trata de “trocar no escuro”. Antes o nome mais disputado era “Elisa” a minha santa madrezita. Agora, a ceia passou a ser na minha casa e a galera não perde tempo: quer matar dois coelhos c/ uma só cajadada. Natal é isso: até a chatice do “amigo secreto” pode ser uo passaporte pra felicidade: que o diga o Durval!
    abração
    Natália

  2. Olá, Natália!
    Muito grato! Realmente os amigos secretos familiares também dão pano para manga, né? No teu caso, em que o Natal e o aniversário caem juntos, quem te tira sai na vantagem!
    Beijos, Rubem

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