O CARINHA DE PAU

Era uma vez, em um reinado de faz-de-conta, um soberano falastrão. Pouco ou nada produzia, diziam seus detratores. Na verdade, nem mais nem menos do que seus antecessores e, quem sabe, seus sucessores. Porém, quando o monarca abria a boca para falar, falava e dizia. Tinha em seu discurso aquele não-sei-o-quê capaz de fazer a diferença. Vindas dele, todas as palavras ganhavam sentido e pareciam fatos. Atacava e era inatingível. Mesmo as (muitas) gafes revertiam a seu favor. Sua lábia era reconhecida em reinos distantes.

Um dia (sempre que o narrador começa uma frase assim, o protagonista treme de medo), sem nenhuma explicação ou doença, o rei falastrão ficou afônico. Tudo começou com uma rouquidão suave, apenas em pronunciamentos oficiais. Agravando-se, atacou em entrevistas para rádio e TV. Soaram os alarmas quando ela apareceu nas inaugurações de suas obras. Mas aí foi tarde: certa manhã, o rei acordou sem palavras.

Seu porta-voz (cargo que daquele dia em diante passou a auferir adicional ironia) se adiantou em minimizar o problema. Um homem é muito mais do que suas cordas vocais, disse em alto e bom tom. Uma junta médica havia sido escalada para fazer uma bateria de exames. Outros monarcas já ficaram sem palavras, disse sem que ninguém estivesse disposto a pesquisar se era ou não verdade.

Imediatamente a mudez real causou um alvoroço na corte. Como fariam para ser entendidos pelo povo de agora em diante? E, não sendo a resposta fácil, muito menos a cura do misterioso mal que se abatera sobre a primeira garganta, o reinado começou a sentir as mudanças. Era como se as obras, os benefícios e os projetos acontecessem tão somente nas palavras de seu líder maior. Sem elas, o reinado estava nu.

O secretário da educação deu uma idéia: que o rei escrevesse o discurso com suas próprias palavras para um deles ler. Em dúvida, pediram ao autor que servisse de cobaia. Diante de dezenove reitores das universidades do reinado e dos arredores, o secretário da educação apanhou o discurso. Olhou bem. Leu um pouco em silêncio. Engasgou. Transpirou. Desistiu. Ele não poderia ler o que estava escrito ali. Não daquele jeito. Dificilmente seria demitido, mas temia por sua reputação.

Uma revolta popular começou quase calada. Todos diziam que a corte, ao contrário do rei, não falava o que fazia ou fazia o que falava. Os burgueses começaram a adquirir moeda estrangeira e investir os lucros além muros. O povo partiu para as compras com medo de desabastecimento e, rapidamente, subiu a inflação e a inadimplência. Com elas, os juros. Séculos de economia saudável estavam em risco. A própria monarquia se mostrava fragilizada. Nessas todas, o rei mudo.

Então, em cadeia nacional, o soberano apareceu com um bonequinho de ventríloquo, a sua cara, sentadinho no colo. O porta-voz perguntou: Majestade, o boneco fala pelo senhor? Imediatamente, sem que o rei desfizesse o sorriso, o boneco disse que sim, isso mesmo, podem acreditar! E logo começou a discursar, sacudindo sua cabecinha de pau ora para a direita, ora para a esquerda. Alívio na corte. Apavorada, até mesmo a oposição se uniu para exaltar o grande líder e o pequeno falante. O reinado estava salvo! A economia estava salva! A monarquia estava salva! A vida de todos voltaria a melhorar. Principalmente a do bobo da corte que ganhara o concurso de imitador real, pago a peso de ouro por suas palavras e, principalmente, pelo seu silêncio.

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