Rufar dos Tambores

Número 376

ENQUANTO TEMPO

Por seres tão inventivo e pareceres contínuo

Tempo, tempo, tempo, tempo,

És um dos deuses mais lindos

Caetano Veloso

Reparando bem, olhando daqui e dali, a crônica nada mais é do que o texto enquanto tempo. Ou, de trás para adiante, o tempo enquanto texto. Uma volta de ponteiros na página: sempre igual, sempre diferente, pois em cada passagem se refere a outro período. Um gênero literário para todos carregarmos no pulso e consultar quando der vontade, seja na forma analógica (impresso) ou digital. Por quê? Pela simples razão de ser preciso. Quando? Assim que tivermos uma brecha em nosso próprio tempo.

Como o saltitar dos segundos, a crônica é feita de minúcias, de miudezas. Grãos de vida escorrendo na ampulheta da História. Num piscar de olhos, o tema aparece diante do escritor e o seduz. Depois, não importa quantas horas ‒ ou mesmo dias ‒ serão necessários para que ele aborde o assunto em seu blog ou na coluna do jornal: quando o texto ficar pronto, a instantaneidade será enfim restabelecida. Então, o tempo da crônica estará de volta ao corriqueiro pra já.

Mas, se a crônica é um texto enquanto tempo, a que tempo nos referimos? Depende. Pode ser o passado: muitas crônicas são escritas a partir de lembranças do autor, vindas de uma história que escutou de um amigo ou mesmo resgatando um lugar que não mais existe. Pode ser, também, o tempo presente, para comentar a notícia que deu agora mesmo no rádio ‒ você ouviu? E nada impede que uma crônica tome por base uma pesquisa ou descoberta científica e, assim, projete nosso futuro.

Por falar nisso, existem crônicas que morrem com o tempo, enquanto outras sobrevivem a ele. Em um extremo, o texto que o cronista escreve sobre um fato tão, tão, tão imediato que, se não publicar no dia, nunca mais publicará: perde o sentido, morre antes de nascer. No outro, obras sublimes como um poema, eternas como um romance, contundentes feito contos ‒ crônicas para serem lidas por mais de uma geração com o mesmo prazer, com igual atualidade, fruição e pertinência. Entre os extremos, retratos sempre fiéis ao nosso tempo, imagens para nunca mais e para sempre.

Na hora de escrever, o cronista poderá fazê-la parecer um conto, um artigo, uma poesia. Algumas nos deixarão com aquela inquietação típica em quem gosta de classificar tudo: será isso uma crônica, mesmo? Ela também poderá se parecer conosco ou ser a cara de alguém que conhecemos. A crônica pode contar uma história sua, minha ou nossa, assim como você tem pleno direito de discordar do cronista em número e grau. Uma só coisa a crônica não pode ser: infiel ao tempo. Assim, estará traindo sua essência, sua magia e a própria razão de existir.

Citando novamente Caetano, (…) te ofereço elogios, tempo, tempo, tempo, tempo, nas rimas do meu estilo.

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