Rufar dos Tambores

Número 402

Dois garfos

Rubem Penz                

Sempre que chega o final do ano, cronistas de ofício olham para o céu em busca de sinais. Desejam da Estrela Guia a inspiração para, com seu encanto, oferecer aos leitores alguns instantes de meditação e originalidade. Pleito muito justo, pois os balanços e retrospectivas afundam nosso chão com suas pegadas de sangue. Não fujo à regra. E, razoavelmente íntimo da elocução dos arautos, aguço os sentidos, pois as mensagens nos chegam do modo mais insuspeito. Eis a prova:

Em rotina alterada e como há muito tempo não acontecia, neste dezembro almocei em restaurantes todos os dias de semana. Por duas vezes, acompanhado por um dileto amigo. A maior parte do tempo sozinho e com os olhos e ouvidos bem abertos para fugir da má companhia dos fantasmas interiores. Refeições comerciais padrão: primeiro, enfrentando a fila de comensais escolhendo iguarias do bufê – em um extremo as saladas, no outro a indefectível balança. A seguir, na disposição apertada das mesas, compartilhando a troca de palavras entre conhecidos e de silêncios entre estranhos.

Certo meio-dia, depois de cruzar o paraíso (inferno?) das calorias e receber o vaticínio dos quilogramas no prato (R$14,20), apanhei os talheres e me posicionei em uma das contíguas mesas de dois lugares, entre uma senhora bem vestida e igualmente solitária, e um casal de jovens. Quando ia começar a refeição, reparei que havia apanhado dois garfos e nenhuma faca. Por segundos olhei para os talheres gêmeos em minhas mãos, admirando a criatividade das musas para nos mandar recados. Suspeito que devo ter esboçado um pequeno sorriso, gabando-me da grande acuidade.

Afinal, assim é nossa vida! Por vezes, temos à nossa frente pratos bem servidos de saborosas oportunidades e nem todas as ferramentas para tirar proveito. Nesta hora, uma escolha se impõe: ou, inoperantes, lamentamos as escolhas, a sorte, o destino; ou nos movemos em busca daquilo que nos falta. Em algum lugar, ou com alguém, encontraremos o complemento necessário para desfrutar da lauta refeição da vida. Ninguém é autossuficiente ao ponto de depender tão somente de seus recursos. E são as trocas, os movimentos na direção do outro para buscar e oferecer, o maior legado de nossa passagem terrena.

Por outro lado, os garfos, instrumentos preciosos e fruto de nosso engenho e arte, quando em excesso, mostram-se um enorme desperdício. E quantas vezes caímos nessa armadilha? Acumulamos muito de algo que o bastante seria menos pesado e socialmente mais justo. Pois, mesmo sem ser a minha intenção, deixei uma faca sem seu par no restaurante. Numa hipótese extrema, meu ato seria sentido por outro comensal para quem faltaria o abusivo garfo que eu detinha.

Mais: os talheres, livremente oferecidos para que todos apanhem apenas os seus, são como os bens sociais. Somente a ética e o bom senso impedem alguém de tomar todos para si, deixando o entorno comendo com as mãos. Quando uma pessoa, ou um grupo, apropria-se do bem coletivo, é consciente de seu valor e tem a exata noção da falta que fará aos outros. Por isso a corrupção, o clientelismo e o favorecimento ilícito da política brasileira são tão execráveis.

Enfim, naquele mínimo instante, saciado de inspiração e ainda com o sorriso bobo na face, resolvi olhar para os lados. Alheio, o casal de jovens à esquerda conversava sobre trabalho. Porém, a senhora à direita olhava para mim com evidente censura. Pragmática, ofereceu a lição derradeira:

– Viu, só! É isso que dá não prestar atenção no que se está fazendo…

 

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