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O cavalheirismo na preservação da espécie

Coluna do Metro Jornal em 29.10.13

Tudo na natureza está sujeito a uma lei não escrita, porém infalível: a lei do uso e do desuso. Aquilo que é útil, segue viçoso. O que não mais precisamos, definha e desaparece. É por isso que afina a perna do paraplégico – exemplo propositalmente trágico para abrir uma crônica, pois fujo de arquétipos mais sexuais. Também está aí o motivo para o declínio do cavalheirismo, outrora festejado e hoje denunciado como “machismo benevolente”. Pesquisando em artigos, chocado, vi teses que relacionam o cavalheirismo com a violência doméstica (citam até “O médico e o monstro”). Maria da Penha para quem abrir a porta do carro! A síntese, porém, é: não existem mais cavalheiros porque não queremos mais cavalheiros.

O que as feministas denunciam como machismo benevolente é o caráter dominador das gentilezas. Subliminarmente, quando um homem se adianta em pagar a conta do restaurante, está revelando o desejo de submeter a mulher ao seu controle. Algo tão arraigado na sociedade que, se houver um único homem à mesa entre várias mulheres, será para ele que o garçom entregará a cobrança. Também age como macho dominante quem coloca sua força a serviço da mulher na hora de carregar sacolas ou caixas pesadas. As feministas leem esta bondade como ele ditando: viu, você é fraca, precisa de um homem a seu lado. Abrir a porta do carro ou oferecer-se para puxar a cadeira, então, já foi atirado ao rol do anacronismo cafona.

O que proponho, na velha e boa antropologia de botequim, é pensarmos por outro ângulo. Mesmo pós anticoncepcional, quando o consórcio carnal viu reforçada sua face mais recreativa em detrimento à reprodução, a mulher ainda procura um homem capaz de produzir bons herdeiros. Por isso dá preferência aos bonitos, inteligentes e bem sucedidos. Mas não para por aí: quer um companheiro que ajude quando nascer o filho, permaneça a seu lado, divida a provisão da prole. Isso não é cultura, é natureza. O homem que, ao ver a mulher passando frio, tira seu casaco e a protege, manda o seguinte recado: abro mão do meu conforto em favor de ti, ou do que representas. Mais do que ninguém a fêmea sabe que ter filhos é “abdicar em favor de”, “colocar-se ao dispor de”, “dar preferência a”. Mostrando-se capaz disso, o homem está em vantagem competitiva com outros da espécie.

Agora, se minha tese é a perdedora, paciência. Seguirei sendo gentil e rumarei para a extinção ainda com a esperança de que minha filha encontre, na raquítica fração social dos cavalheiros, um rapaz atencioso para ela. E ai dele se pisar na bola: ela tem pai!

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