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Oferta de hoje: amizade

Coluna de 29.04.14 no Metro Jornal Porto Alegre

Muito antes de termos como ecologia, preservação ambiental e proteção aos animais virarem palavras de ordem, Carlos Drummond de Andrade já fustigava nossa consciência num texto que prima pela ironia: “Da utilidade dos animais”. Nele, a dulcíssima professora explica para uma turma de crianças a importância de respeitarmos e amarmos os bichinhos – uns nos servem como lombo de carga, outros nos fornecem carne e couro; destes se tira a pele, daqueles os chifres, dos outros o óleo… Confusas, as crianças colocam a professora em cheque diante da óbvia contradição entre amar/pelar, proteger/carnear, gostar/explorar, etc. Tudo sem que ela acusasse os golpes.

Hoje, no exato tempo em que o individualismo parece ser um mal pandêmico, li uma crônica que, de alguma forma, comunica-se com o texto de Drummond. Ela trata sobre como devemos gostar, compreender, cultivar os amigos independentemente de suas eventuais falhas, esquisitices ou idiossincrasias, pois, de cada um, basta extrair seu melhor. Também fazendo uso de ironia, os argumentos são divertidos: há amigos bons para ser companhia de viagem, há os excelentes confessores, os motoristas da rodada, enfim, para alguma coisa aquela criatura será útil. Tê-lo no conjunto das relações será estrategicamente aceitável.

Para quem já está desconfortável com o rumo desta prosa, má notícia é que este tema ganha amplitude ainda maior quando aplicado em trocas turbinadas por redes sociais. Agora, mais do que dominar muitas capacidades, vale possuir uma teia de relacionamento multidisciplinar. É quase como ter um latifúndio ocupado pela maior biodiversidade possível, tudo a um clique de acionamento para, de alguma forma, sair beneficiado. Estranhamente, ninguém parece ver algum motivo para denúncia em tal mercado de câmbio: é como se todos estivéssemos juntos e em pé de igualdade na vitrine do açougue virtual. E a própria amizade passou a ser dispensável – um perfil bem montado e conhecidos em comum já basta.

Folgo saber que meu valor para a comunidade não segue a medida da utilidade dos animais: tenho pouca carne, escalpo que não dá peruca e, por falta de força, carga jamais será meu forte. Amigos? Nem sei como consigo, pois não sou rico, trabalho demais para conseguir tempo de confortar infinitas dores, línguas são meu ponto fraco (para viagens ao exterior, estou mais para carga do que para motor). Além do mais, não sou especialista em nada que conte nas redes. Se há esperança para alguns casos iguais ao meu, ela está na sublime inutilidade da amizade estéril. Tipo a do gato. Isso! Torçamos para que caia de moda a amizade utilitária e gostem da gente por nada além da lânguida e felina companhia. Sem, claro, querer nossa pele para tamborim.

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2 Comentários

  1. Belo tema.
    Também sou do time de amigos por amizade, simples assim. Tenho uma “horta” bem variada de amigos: o grupo de infância, o da escola, o da faculdade, e alguns agregados no caminho. Às vezes até tento fazer uma salada bem variada, misturando os grupos, mas não é muito fácil, pois o único ponto em comum sou eu. Aí percebo que cultivar amigos é uma arte, principalmente nos dias corridos e virtuais de hoje. Temos que ter tempo para programas caseiros, literários, baladas, churrascos, acampamentos, chimarrão no parque, cinema, etc, etc, etc. Talvez seja por isso que não consigo ampliar minha rede de amigos no face. Estou muito ocupada vivendo amizades reais.
    Também estou na luta para manter os amigos literários.
    Grande abraço.

    1. Sim, Sandra, imagino!

      A cada novo círculo, vamos agregando mais e mais amigos e, destes, os melhores são os quais apreciamos a companhia, simplesmente. Se bem que ser uma companhia apreciável nunca será “simplesmente”, né?

      Grato, abração de amigo,
      Rubem

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