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Rubem Penz
Desde que a perda gradual dos cabelos passou a ocupar minha cabeça, e isso já tem quase 20 anos, ouço falar em cura para a calvície. Mas a promessa de repovoar o alto do crânio com madeixas firmes e fartas; loiras, ruivas ou morenas – ou mesmo brancas, vá lá –, é muito mais antiga na humanidade. Quase uma histórica obsessão farmacológica. E sempre com a convicção de que aquele que encontrar a fórmula mágica ficará milionário. Afinal, está aí um ponto que cala muito fundo na vaidade masculina.
Leio agora que, mais ou menos sem querer, pesquisadores que estudavam os efeitos do stress no trato gastrointestinal de roedores parecem ter encontrado um novo caminho. Ratos modificados geneticamente produziram em excesso determinado hormônio ligado ao stress e, assim, perderam seus pelos das costas quando ficaram velhos. Para a surpresa geral, uma substância desenvolvida para bloquear o efeito de tal hormônio devolveu a pelagem original aos bichos, tornando-os indistinguíveis daqueles do grupo de controle. Quer dizer, mataram dois ratos com uma cajadada só: o nervosismo e a pelagem.
Sobre isso, duas observações: fica comprovado cientificamente um antigo dito popular, segundo o qual as preocupações é que fazem a gente perder os cabelos. Por mais que os fatores hereditários incidam preponderantes, ou que alguns hábitos possam agravar o caso (como o uso abusivo de chapéu ou boné), aquilo de dizer “Filha, assim o teu pai perde até o último fio de cabelo”, agora, mais do que nunca, é verdade científica! A outra observação é que um homem não “parece” mais sério (severo, comprometido, cioso) depois de calvo. Ele realmente é assim!
Digamos que a fórmula que promete resolver a queda definitiva dos cabelos, dessa vez, seja para valer – falo em hipótese porque estou careca de ler falsas juras. Como fator mais positivo disso tudo, a humanidade estará livre do Combover, aquele penteado que deixa um dos lados bem longo para disfarçar a aridez no alto da cabeça passando a madeixa por cima e colando com gel. Quem se submete a esse papelão – e são muitos! – merece a cura de seus males. O pobre, junto com o cabelo, perdeu a noção. Ou acha que não percebem o truque? Considero tal penteado e a peruca os maiores equívocos da vaidade masculina.
Porém, mesmo o remédio sendo quente, haverá quem opte por não fazer o tratamento. Afinal, alguns homens ficam mais bonitos sem cabelo. Lembro do Yul Brynner, por exemplo – usar o cinema é uma ótima estratégia, pois ficaria chato nominar amigos… E no meu caso, a calvície teve lá seu benefício estético. Sim! Numa época, serviu para amenizar a eterna cara de criança, que traz vantagens, mas cobra alto preço na juventude. Agora, sem esse risco, e quando parecer jovem viria apenas com o bônus, acho que meu processo poderia ser revertido para um ponto de mais ou menos doze anos atrás, ainda na fase das “entradas”. Quer dizer, eu sou um cliente potencial, mesmo que para meia dose – não abro mão da testa longa.
Antes de encerrar, gostaria de lembrar que, pela importância da queda dos cabelos, algo está sendo deixado de lado, isto é, este tratamento da calvície originalmente combate o hormônio do stress. Percebam a vantagem adicional do remédio: se não der muito certo, o paciente restará calminho, resignado, tranquilo… Conformado! Logo, um bom negócio até quando fracassar. Será que o laboratório tem ações para serem adquiridas na bolsa?

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