Rubem Penz

Pare com o que esteja fazendo para escutar Elis Regina – aquela cujo timbre cristalino e dicção perfeita fazem da voz o mais célebre instrumento musical brasileiro. Pode ser interpretando “O bêbado e a equilibrista”, de Bosco & Blanc.

Pare um instante para visitar a inacreditável voz de Cássia Eller e descubra o valor de um arranhão medido e certo capaz de dar a dramaticidade sob encomenda cantando “Por enquanto”, de Renato Russo.

Pare de olhar o Facebook e escute Gal Costa interpretando “Vaca profana”, de Caetano. Uma versão tão definitiva quanto “Brasil”, (Cazuza, Israel e Romero). A prova de que um timbre doce corta como um punhal.

Pare de chorar um instante para escutar Simone entoando um marco feminista: “Começar de novo”, de Ivan Lins e Vitor Martins. Ou para sorrir com uma intransferível esperança em “Tô voltando”, do Chico – porque esperança não tem dono.

Pare e ponha fones de ouvido para não perder a sincopa precisa de Rosa Passos, a baiana que mexe com a voz como ninguém na hora de suingar o samba “É luxo só” do mestre Ary Barroso. Isso, sim, um luxo só!

Pare de frescura e reconheça a grandeza de Zizi Possi, uma voz de rara precisão. São muitas as opções para apreciar essa artista, mas eu escolho “Viver, amar, valeu” do Gonzaguinha. Ou reconheça a importância histórica na retomada da MPB por Marisa Monte na audição de “Segue o seco”, dela e Brown.

Pare de pensar que as vozes precisam ser grandes e fortes e potentes para terem valor. Comece por Nara Leão “A banda”, (Chico). Passe pela Fátima Guedes em “Muito intensa”, dela própria, e chegue na Adriana “Fico assim sem você” Calcanhoto – todas adoráveis.

Peraí, se o problema é gostar de “chegada”, temos a estonteante Elza Soares “Se acaso você chegasse”, do Lupi; a Alcione “Coisa feita” (Bosco, Blanc e Emlio), ou Nana Caymmi em “Copacabana”, de João de Barro.

Parei no tempo? O tempo não para: Ná Ozzetti em “Nós”, de Tião Carvalho; Mônica Salmaso com “Canto de Iemanjá” (afrossamba de Baden e Vinícius); Maria “Menina da Lua” Rita, Gisele “Morena branca” De Santi, Vanessa “Folia do Divino” Longoni, Tulipa “É” Ruiz e o “Perfume do invisível” de Céu. Mas há muitas outras!

Porém, o melhor vem agora. Ao montar essa parada, parei e dei-me conta de que absolutamente nada sei sobre a bunda dessas mulheres. Elas têm (sim, todos temos). E isso passou e passa muito longe de ser o que importa hoje e sempre.

Crônica publicada no Metro Jornal em 08.03.16

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