Rubem Penz

E lá está você levando a vida com a previsibilidade dos ponteiros do calendário quando algo, ou alguém, entra em cena. Entra e dá um toque. Um pequeno toque, levando-se em consideração a extensa vida pregressa (e futura). Depois, discretamente, deixa o cenário. Porém, sua vida mudou de sentido e o destino, de endereço. Olhando em perspectiva, medindo-se o legado, talvez pareça mais do que um toque, e muito mais do que pequeno. Incrivelmente, esta pessoa, fato ou objeto entrou e saiu de sua vida (mais cotidiana) de forma quase instantânea. Só para fazer a diferença. Toda.

Às vezes é para o mal: o tropeço em uma pedra de crack e lá se vai um bom destino a longo prazo trocado por algumas de fissuras imediatas; uma humilhação pública ceifando a nascente carreira profissional; a derrota em um concurso capaz de secar o manancial de perspectivas (ou o estoque de perseverança). Em outros momentos, é para o bem: o bom conselho de um mentor generoso; a viagem que descortina novos horizontes; um amor, mesmo fugaz, com o condão de revelar sua essência. Quantas vezes pessoas queridas, com as quais pouco convivo, são aquelas que aparecem na hora certa para meu auxílio? Ou, como em recente caso, um estranho e uma simples carona são capazes de colocar a história de volta nos eixos? São pequenos toques e gigantes transformações.

Uma experiência que sempre conto, para a qual ainda faltava registrar a gratidão em público, é a do encontro com minha fundamental mestra Valesca de Assis. Quando fiz a matrícula em sua oficina literária há dez anos atrás, jamais imaginaria o quanto seus toques na arte de perseguir a forma textual seriam determinantes em minha vida. Seu talento em conduzir o grupo de oficinandos fez com que nos tornássemos amigos, sua inteligência afetiva (ou afeto inteligente) capturou a todos e me serviu – melhor dizendo, sempre servirá – de guia. Por exemplo, recém encontrei duas colegas da época (Cristina e Ângela) e nos abraçamos com verdadeira saudade do convívio. E, se não bastasse esta enorme dívida de gratidão, a professora Valesca me brindou com o convite para que fosse seu monitor em outras oficinas suas, resgatando para sempre um pendor do qual eu abdicara: o magistério. Toques de fada madrinha.

 

Santa Sede – Quem sabe, seja este um toque a você: seguem abertas as inscrições para a oficina de crônicas chamada “Porto Alegre Soa Assim – Santa Sede módulo de verão”, quatro encontros em janeiro, ideal para iniciantes. Experimente você também uma aula diferente. Descubra o cronista que pode existir aí dentro e espera a chance de se aprimorar. Detalhes em rubempenz@gmail.com. Restam poucas vagas.

 

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