Rubem Penz

O vento, esse ar com tamanha pressa em andar de lá para cá, sempre que aparece compõe e decompõe o entorno. Verdadeiro pincel da Natureza: ora represa as águas, ora ergue ondas; ora apaga o fogo em rápida lufada, ora alimenta no ato contínuo; desenha e redesenha as dunas e, ao olharmos para o céu, lá estará ele, laborioso, varrendo as nuvens. Por isso, dias de vento forte sempre são promissores.

Todos reparamos, por exemplo, o que faz o vento com a saia da mulher – e não adianta querer negar, pois a vista tem reflexos livres de repressão. Tal cena, ou nos oferece a graça infantil da revelação das pernas (quando não das roupas de baixo), ou nos brinda com a sensualidade elegante daquela que se preserva ao conter, firme, a barra junto a si. Neste caso, a preferência terá o dom de separar os meninos dos homens. Claro que, bom mesmo, é ter a chance de uni-los: ao menino que nos habita oferece um átimo de corpo, ao homem que nos conduz demonstra a admirável compostura.

Outra situação típica dos dias ventosos é a desordem nos cabelos. Aqueles que os têm longos costumam andar com um elástico, faixa ou tiara ao alcance das mãos para socorro – ou a metade da atenção estará desviada à inglória doma. Aos vaidosos, não restará fio de esperança: apenas os cortes muito rentes estão imunes ao castigo impiedoso do vento. Todavia, sofrer mesmo, sofre o careca cuja ilusão repousa nos longos fios transpostos no entorno da calva. Não há gel que os proteja do súbito golpe do vento, restando a eventual aparência de “moicano”. Oh, dor!

E quem, em dia de viração, jamais correu para recuperar um chapéu, uma echarpe, algumas folhas de jornal que tenham voado? Ou nunca teve o churrasco maculado por um vendaval? Quem nunca viu vento derrubar bolas de sorvete, virar bandeja de garçom, levar uma correspondência para destino incerto, ruir castelos de cartas? Ou não constatou que cabe ao vento a tarefa infecunda de bater portas interrompendo, no estampido, o sono do bebê ou do idoso? Existiria alguém imune à sutil faculdade do vento em povoar com insinuações sinistras o medo do insone?

Pois 2016, ao menos por aqui, nasceu sob os auspícios do vento. Resta saber se isso significará apenas um ou outro rubor feminino, trabalho para desembaraçar os cabelos, objetos atirados ao chão ou sustos tanto ao que dorme quanto ao desperto. Meu palpite é a força da poderosa metáfora. Aliás, mais do que palpite, desejo: que o vento traga consigo soluções e leve para longe de nós tanta discórdia. No mínimo, que dissipe o nevoeiro clareando nossa razão.

Crônica publicada no Metro Jornal

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