Crônica do jornal Metro em 08.10.13

Passei a semana passada fora de casa, mas também passei uma semana inteira me sentindo em casa. A aparente contradição se explica porque estive na cidade onde viveu meu bisavô por parte de pai e, a seguir, onde nasceu sua esposa, minha bisavó. Respectivamente Lajeado e Santa Cruz do Sul, ambas próximas da capital gaúcha. Peguei a estrada que leva ao Vale do Sinos (de onde vem o ramo materno) e desviei na direção do Vale do Taquari. Para quem não sabe, esses vales são dois dos berços da imigração germânica no Brasil.

Uma das maravilhas de chegar na localidade de origem é a curiosidade dos cidadãos em saber o nosso sobrenome e o nome dos avós ou bisavós. Lajeado tem hoje mais de setenta mil habitantes – uma cidade de porte médio, portanto. Acontece que o meu pessoal é de um tempo em que todos se conheciam por lá. Seja no botequim onde fiz um lanche, nas escolas por onde passei ou na festividade da Academia Literária do Vale do Taquari, ao se darem conta de minhas raízes, brotava a curiosidade. Conversei com um imortal, inclusive, que foi amigo de infância do irmão caçula do meu avô. Uma prima me assistiu sem se identificar. E aquele mar de olhos claros abrigaram meu olhar azul com muito carinho.

Pois é: dependendo do sobrenome, chego a ser segunda geração americana de nascimento. Há um Silva, porém, para arremessar os genes aos primórdios da colonização (linhagem portuguesa) que somou sangue ameríndio e africano na ancestralidade. Fato que a aparência esconde: além do Paraná, meus queridos conterrâneos insistem em falar comigo em inglês, achando que sou gringo. Talvez a exceção seja São Paulo, a mais cosmopolita de nossas capitais, na qual saltamos da Itália para o Japão num cruzar de bairros. Portanto, meu pouquinho de Brasil jawohl é uma terra onde a morena boa que nos faz penar é menos frequente do que Ary Barroso supunha.

Pensando bem, quem sabe tenha escolhido falar dessa viagem porque me senti verdadeiramente nativo neste pedaço de terra que coube aos colonos europeus. No fim, somos tão desbravadores quanto os portugueses, tão fortes quanto os negros (escravos da lida, não dos homens) e tão irmãos quanto os demais povos que somaram o suor para construir uma nação pujante e ímpar em termos de convivência. Tudo sem jamais perder a tradição de um Brasil que canta e é feliz, fato comprovado por uma boa coincidência: cheguei em Santa Cruz no dia da abertura da Oktoberfest. Em dialeto teuto brasileiro, isso é muita sorte uma veiz!

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