Rufar dos Tambores

Vice-versa

Número 460

Rubem Penz

A certeza é um belo e perfumado jardim a ser cultivado com zelo e paciência. Canteiros milimétricos, harmonia de cores, poda, regador. Caminhos marcados por seixos, árvores com copas em guarda-sol, arbustos esculpidos. Formigas andando em fila indiana, abelhas serenas e delicados beija-flores. A certeza, diligente, extrai os inços. O que é muito diferente do mato fechado: habitat da dúvida. Ali, o plano é estar atento, pois a delicadeza, o fascínio, o encanto, pode surgir de onde menos se espera. É no mato que melhor vive a borboleta, cujo voo é a imagem da imprecisão. Na natureza, os escultores são o vento e a água, e o seixo habita o fundo do regato. Na floresta, inço é o homem.

A certeza é religião: templos em que a suspeita evolui para confiança, a confiança se transforma em dogma, o dogma em verdade. Ter certeza é depositar fé, e o paraíso aguarda os homens de boa fé. É crer mesmo contra as evidências, quando não a seu favor. A certeza acalma as feras, orienta ovelhas perdidas, guia por caminhos seguros. Por sua vez, a dúvida é a mola mestra da ciência. Em que outro lugar poderiam conviver diversas hipóteses, seja em conflito ou em harmonia? Em que outro lugar as perguntas são mais importantes do que as respostas – essas crivadas de novas questões? Na ciência, a suspeita evolui para a comprovação, o que dispara novas experiências.

Certeza também é técnica. Preparo, treino, antecipação. Ter para cada necessidade uma resposta pronta, um plano, uma tática. Conhecimento das variáveis e das estratégias. Fundamentos revisados e repetidos até a exaustão. Certeza é militar, uniformizada e com o paiol repleto de argumentos. A dúvida, não. Ela está mais para a guerrilha da intuição, da cisma. Ela nunca sabe, mas procura. E quem procura, acha. Dúvida é sentimento, presságio, pele que se arrepia sem motivo aparente. Ninguém está reparando quando ela chega sem aviso prévio. A dúvida jamais manda telegramas. Ela é o que ainda não está escrito.

A certeza se parece com um concerto: você em uma poltrona confortável e numerada, ingressos adquiridos com prudente antecedência. Os músicos dispostos em ordem, com estilo, seguros. Partituras diante da orquestra e do maestro. Hora para começar, acordes determinados, aplausos ao fim. Tudo o que estava descrito no programa, acontece. Com nuances, é claro. Com ardor, com alma e elevado espírito, com certeza. A dúvida é mais jazzística. Ou, para além do jazz: é jam session. É música fora do plano, músico que ascende da plateia ao palco, surpresa em cada compasso. É frio na barriga no quatro da contagem. É público hipnotizado. É abismo, velocidade, suicídio e ressurreição. Na dúvida, não ultrapasse: ande lado a lado.

Certeza e dúvida, dúvida e certeza, nenhuma é melhor do que a outra. Ou mais necessária, menos desprezível, melhor companheira. Ambas são faces de uma só moeda. Quem carrega certezas no bolso, leva consigo as dúvidas, mesmo quando se nega a olhar. Vice-versa.


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