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Rubem Penz

A voz que indica os caminhos nos aparelhos de GPS, acessório cada vez mais presente nos automóveis, é predominantemente feminina. Quer dizer, há uma mulher dizendo a quem está ao volante para onde deve seguir. Também é uma mulher que indica os voos de partida e chegada nos aeroportos e, nas lojas, chama pelos pais de uma criança perdida. Isto não é coincidência. Uma das razões para que seja assim passa pela suavidade – a tonalidade das mulheres é mais agradável. Outra, e talvez mais importante, é que fomos, desde a infância, acostumados a ser mandados por mulheres. E, pensando bem, vozes masculinas no GPS podem gerar muitos problemas.

Por exemplo, uma moça independente, solteiríssima, cabeça feita, senhora de si desde os bancos universitários coloca uma voz de homem no GPS do carro. Ele, imediatamente, começa a lhe dar vozes de comando: vire ali, volte acolá, apanhe o caminho da esquerda. No primeiro trajeto é divertido. No terceiro dia, tolerável. Porém, não dou duas semanas para ela trocar por uma voz de mulher só para livrar-se daquele homem insuportável que pensa que pode mandar nela só porque acha que conhece o caminho. Isso sem falar no caso de, acidentalmente, ocorrer alguma falha na indicação. Se for homem, para ela, além de inesquecível, isso será imperdoável, ainda mais se coincidir com a TPM.

Para quem considera meu exemplo tendencioso, vamos dar um giro de cento e oitenta graus na motorista: ela agora é uma mulher de seus trinta e poucos, casada, mãe em tempo integral e dona de casa. Quando o GPS homem passa a distribuir suas ordens, algo no subconsciente começa a perturbar – não basta o marido para decidir os rumos de suas despesas, agora vem outro homem para mandar nela dentro do carro. Pior mesmo só se ela chegar à conclusão de que está com dois homens lhe torrando a paciência, e sem nenhum para lhe pegar no colo, deitar-lhe no solo e lhe fazer mulher (é delicioso citar Wando). Como é mais complicado trocar o marido, dará um jeito de alterar a voz do GPS.

Mas, digamos que o fabricante do GPS identifique no aparente autoritarismo chauvinista embutido no tom mais grave a raiz do problema, e resolva dotar o sistema com um locutor pleno de delicadeza, educação e tato. Algo que beire à afetação. Assim, seus comandos começariam com infalíveis pedidos de favor ou corretíssimas solicitações de licença. E sempre terminariam pontuados pela gratidão. Tipo: “Por obséquio, seria adequado dobrar à esquerda na próxima esquina. Muito obrigado.” Ou: “Por favor, utilize se possível o próximo desvio para acessar a via lateral. Agradecido.” Desastre. Para umas, estouraria a paciência pelo excesso de cerimônia. Outras considerariam, simplesmente, deboche.

Mas o GPS com voz masculina não é preterido apenas por mulheres. Lógico! Homem que é homem sabe o caminho melhor do que qualquer programador de meia tigela. E, por sua natureza competitiva, desacataria os comandos de outro homem só para provar que conhece uma rota alternativa mais curta, menos movimentada, duas vezes mais rápida. Melhor: deixaria o GPS desligado sempre que soubesse mais ou menos onde fica o endereço. Isto é, absolutamente o tempo inteiro. Ou alguém já viu um homem em sã consciência assumir que está perdido?

Quando o GPS com voz masculina ditar ordens em um carro com um casal, imagino que teremos briga na certa, conseqüência direta das reações naturais de macho alfa:

– Benhê, diminui a velocidade que ele disse para entrarmos na próxima avenida.

– Se acha que ele sabe mais, casa com ele, então…

Pois é… Por uma voz feminina, as mulheres compreendem as indicações de rota como sendo “dicas” da amiga eletrônica. E para os homens, são “pedidos” de uma mulher digital muito simpática que, inclusive, parece estar lhe dando mole. Logo, não custa atender. Tudo muito mais suave e palatável. Eu, pessoalmente, jamais ouvi um destes aparelhos com voz grossa.

Só para não perder a oportunidade, outra hipótese é ser o GPS com voz de mulher a mera confirmação da minha tese sobre as relações heterossexuais. Diz ela que o casamento é a união entre duas pessoas: uma é a que manda; a outra é o marido.

 

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9 Respostas

  1. Lisete

    Oi, Rubem,
    pois aqui no Mexico, em que “PADRE!” eh “super!”, “Legal!”, “Maravilha!” e “Madre!” eh ofensivo, feio, ruim, ontem estive em um carro c GPS comprado aqui, e a voz eh … masculina, como a de todo padre…
    um abraco,

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  2. Rubem Penz

    Lisete, que interessante…
    Estará ao sul do Big River a reserva (católica) de patriarcado guasca, galo velho e bigodudo?
    Arriba!
    Muito grato pela informção preciosa, abraços, Rubenito

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  3. Miguel Nácul

    Rubem
    Acabamos de voltar de um passeio pelo litoral da Califórnia, de San Francisco a San Diego com uma extensão a las Vegas. Tudo de carro, eu, a Jaque, a Gabi e , é claro, o GPS. Por via das dúvidas, optei pela voz feminina, porém a Dra. Jaqeline muitas veze dizia que sabia melhor que a GPS. Pode?!
    Um abraço
    Miguel

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  4. Rubem Penz

    Caro Miguel,
    No Ocidente, estamos caminhando para uma sociedade em que o gênero deixará de ser tão marcante nas relações humanas. O comportamento da Dra. Jaqueline diante do GPS é emblemático. Por isso, pode!
    Abraços (e beijos para as meninas), Rubem

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