Rubem Penz

Lembram-se da brincadeira do telefone sem fio? Um colega dizia “x” no ouvido de outro, que repetia para o seguinte, este para o próximo e assim prosseguia até completar o círculo de crianças trazendo o enunciado de volta. Porém, nunca chegava “x”. Vinha um “y”, “w” ou mesmo “z”, corroborando o ditado de que contar um conto é acrescentar um ponto. Novidade, para mim, é isso acontecer no WhatsApp também. Conto para chegar ao ponto:

Em um grupo numeroso que tenho no tal aplicativo, publiquei uma importante conquista profissional, dividindo a felicidade com os confrades. Instantaneamente (como costuma acontecer em grupos de mensagens instantâneas), amigos solidários com o êxito alegraram-se comigo. E foram duas, cinco, dez mensagens de parabéns. Até que, à noite, lendo as felicitações, uma amiga largou um incauto feliz aniversário, o qual demorei a ver. Quando abri a caixa do grupo, dezenas de amigos já festejavam a vinda antecipada dos meus cinquenta e poucos, esperada apenas para agosto.

Desmenti na hora: avisei que não completava anos. E constatei que nem todos leem todas as mensagens com atenção (até então pensava que era só eu). Mais uns dez festejos de aniversário. A amiga que se enganara, em solidariedade, acusou-se como autora da confusão. Mais felizes aniversários. Uma das administradoras do grupo assumiu o comando: ele (eu) festejaria mês que vem. Felicidades! Expliquei que nada tenho de canceriano. Viva o aniversariante! Por fim, como o engano não se desfazia, e com muito humor, desejaram Feliz Natal, apareceu um meme do Barrichello, etc.

Em que ponto quero chegar com essa história? Naquele em que reputações, famílias, integridades psíquicas e físicas podem ser destruídas por uma mensagem truncada, por uma conclusão afoita, por distração ou mero descuido. Até pior: por querer, por desonestidade, por mal. E a rapidez com que uma inverdade se dissipa é sempre superior ao desmentido, demonstrando nossa fragilidade diante da gigantesca teia de informações. É assim no telefone sem fio, é assim no cyberbullying, é terrivelmente assim mesmo.

O cândido engano acontecido teve tudo para fazer apenas graça – ah, garanto que rimos muito… Mas, trouxe a reboque um alerta seriíssimo, um quase pânico: desde o momento em que somos canais de comunicação – mesmo de porte capilar –, temos responsabilidade pela mensagem. Dessa vez não foi nada. E do nada pode vir tudo. Temamos. Eu vivo apavorado.

Crônica publicada no Metro Jornal em 25.07.2017

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