Homo Zappiens, koyaanisqatsi e cavernas

Número 413

Rubem Penz                                 

Homo Zappiens é a terminologia presente em uma obra de Ben Vrakking e Wim Veen dirigida aos atuais educadores. Nomina os seres humanos nascidos em um ambiente tecnológico. De rara felicidade, ela é muito mais do que supõe o bom trocadilho: resume e define a geração dos nossos filhos. Aqueles que têm em casa um jovem, um adolescente ou uma criança, compreendem o que digo.

O universo fragmentado e multifocal da meninada nos assusta em alguma medida: parece que são incapazes de sossegar o pito em uma atividade que requeira mais do que poucos minutos. E, mesmo quando estão estudando, teoricamente concentrados, a TV teima em permanecer ligada. O computador também, e com mensagens brotando na tela feito cogumelos durante a chuva. O i-pod despeja melodias direto no cérebro, tudo ao mesmo tempo e na mesma passada de sentidos.

Nessas horas, a primeira reação que tenho é a de frear o processo: ao menos para as atividades escolares, por favor, desliguem a TV e a música! – é o que digo. Amigos mais avançados falam que, se eles estão indo bem na escola, significa que apreendem conhecimentos sem abrir mão dos múltiplos estímulos. Custo a crer nessa possibilidade. E as boas notas no boletim podem tanto significar que estou certo, quanto que eu exagero. Quem vai saber qual será o reflexo disso tudo na vida adulta…

Mas, pensando bem, noto em mim características destes tempos vorazes – já trago nos hábitos algumas inquietudes com a quietude. Sou um homem da tela lascada, por assim dizer. Acompanhei boa parte da escalada tecnológica, vivi a transição do Homo Sapiens para o estágio Homo Zappiens, só me falta a naturalidade dos que já nasceram com tudo digitalizado, acelerado, imediato, simultâneo. Em resumo, ainda me espanto com as novidades, mas não desejo retroceder.

Quando publicitário, ainda nos anos 1980, criava de modo manuscrito, passava a limpo em máquinas de escrever e acompanhava a lenta magia do papel branco transformando-se em layout pelas mãos de diretores de arte e ilustradores. Cada anúncio cumpria o ciclo de um amanhecer, desde as primeiras luzes iluminando as nuvens altas, até o sol se desprender do horizonte laboral. Agora, processo semelhante é quase instantâneo. Virou koyaanisqatsi – termo que na linguagem Hopi significa “vida em turbilhão”, usado para nominar uma obra cinematográfica visionária de Godfrey Reggio com imagens da natureza em contraponto com a cidade (1982). O filme utilizava apenas o som de Phillip Glass para contar muito de nossa História recente. Impactante.

Enfim, sinto-me como um homem pré-histórico alçado sucessivamente para saltos de tempo: quando me acostumo com uma ferramenta, ela já está obsoleta. O dia a dia me traz de volta a encantadora vertigem de Koyaanisqatsi. Todavia, na mente videoclipada e estroboscópica dos meninos e meninas, com seus cortes quase instantâneos de imagens e sons, a vida turbilhonada parece encontrar uma harmonia insuspeitada. Eles estão em outra batida. Outro ciclo. A agilidade treinada nos videogames contamina expectativas e reações. Intuem os caminhos prometidos pela tecnologia, migram de suporte em suporte e de linguagem em linguagem como se a velocidade das mudanças fosse algo normal.

Caso viva mais vinte, trinta anos, alcançarei a geração dos netos crescidos. Há uma chance de ver meus próprios filhos, autênticos Homo Zappiens, com dificuldades para acompanhar novas mudanças, repetindo o ciclo em que me encontro. Escutarei, então, suas queixas com relação ao comportamento das crianças. Soará Phillip Glass no fundo da memória. “Koyaanisqatsi” retumbando nas paredes da minha caverna.

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