Reveses

Reveses

RubemPenz

Quando eu fugi pela primeira vez foi com orgulho de minhas pernas ágeis, dos meus pulmões a pleno, do coração forte. Olhei para trás quase condoído de meus perseguidores: impus derrota humilhante. Dia de glória.

Quando eu fugi pela segunda vez, o orgulho cedeu lugar ao medo. Não que me faltasse competência – o problema foi a gana de quem estava ao encalço. Ficaram para trás as certezas e, na dúvida, o impulso veio do pânico.

Na terceira fuga, em verdade, nem saberia dizer o que pensava ou sentia. O susto fora tão grande e a urgência tão imediata que, para ser fiel à impressão, foi como ter encontrado na adrenalina o suporte mágico para a ação.

Quando fugi novamente, a quarta neste relato, comecei a me acostumar com o recurso. Aconteceu quase como se fosse algo natural. Voltava a antiga segurança, mas, no caso, como quem dosa as energias.

Quando eu fugi pela quinta vez já não via mais graça na coisa. Escapei, sim. Ileso, também. O problema era desconfiar de que fugir não seria a saída certa, melhor, mais segura. Restava nem prazer, nem orgulho.

A sexta fuga foi por muito, muitíssimo pouco. Atormentado pela indecisão, deixei para a última hora e, assim, fugir pareceu ser a pior decisão entre todas. Num balanço imparcial vejo que dei foi muita, muitíssima sorte.

Na sétima fuga fui alcançado, também na oitava e nona. A décima nem poderia ser colocada na lista: pensei em fugir e paralisei. Só adiciono porque pensar em fugir é fugir igual, apenas com resultados diferentes.

Até quando, pela primeira vez, pensei em enfrentar.

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