Escrever a crônica 1.000

(toque de alarme no celular às 8h00 do dia 27.06.2022)

Matemática é meu mais forte ponto fraco. Tudo o que bons mestres conseguiram – e em tempos de educação claudicante já é bem bom – foi me dotarem de uma “noção matemática”. Ou seja, posso intuir que uma conta não fecha sem ser capaz de fazê-la fechar. O que me falta em exatidão, em proporção aparece. Por isso, desconfie do título tão redondo – é provável que este número já tenha ficado para trás sem que tenha merecido uma efeméride exata. Logo, o texto vale.

Memória talvez seja o mais forte dos meus pontos fracos. Ela é emocional, seletiva, mistura-se com alguma dose de fantasia e vive seduzida por insinuantes lapsos. Mostra-se pródiga em guardar inutilidades enquanto apaga, por exemplo, fórmulas matemáticas básicas. Assim, não lembro exatamente quando deixei este aviso do milhar das crônicas na agenda, nem qual foi a habilidade utilizada para chegar ao número. Na dúvida, o que faço? Obedeço.

Em termos de organização, sou um mediano convicto. Em casa, sei onde (quase) tudo está e, ao mesmo tempo, aceito o fato de que (quase) tudo poderia estar guardado com melhor método. Contas jamais ficam sem serem pagas e um alerta inexplicável faz com que eu desista de gastos supérfluos antes mesmo de conferir o baixo saldo bancário. Num milhar de textos, muitos podem ter escapado nos desvãos dos arquivos, nas trocas de computador, nas falhas de backup. Mas os três zeros são uma aproximação confiável ao contarmos as semanais.

Quando o tema são as certezas, só tenho duas: o amor e a morte. Meu amor é matemático e está constantemente em estado de multiplicação. Amo grandes histórias, amo música, amo lugares, amo a boa mesa, amo – muito amo – pessoas. Umas mais, outras menos, algumas quase demais (demais seria perigoso demais). E a forma que escolho para retribuir o privilégio de trocar tanto afeto é através da criação. Um inédito aqui por escrito, ofertado em palco ou servido no almoço; a graça durante a aula, no bar ou no papo cabeça ao terminar um filme; sempre que eu encontro com você e trocamos sorrisos – aqui e ali sou eu e é o amor.

Ah, esqueci da morte, foi? Pois espero que ela também não lembre de mim tão cedo – vou colocar na agenda um compromisso com a crônica dois mil.

10 comentários em “Escrever a crônica 1.000”

  1. Altino Mayrink

    “Quando o tema são as certezas, só tenho duas: o amor e a morte.” Mesmo como lugar comum, explica muito… parapenz pelas miles crônicas!

    1. ROBERTO MARIO SILVEIRA ISSLER

      Grato pela generosidade oportunidade e incentivo.
      Talvez o número dos assopradores das tuas mil velinhas seja maior. Saúde também é bom para dobrares triplicares ou quadruplicares esses números – essa conta tu consegues fazer! E de quebra aquele “outro tema” fica ainda mais distante! Abraço.

  2. Giancarlo Carvalho

    Já li todas estas 1.000. Manda mais. E que você chegue logo nas 2001, uma odisseia no nosso espaço. Parabéns, Rubem!

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