Verde Cor e a sétima arte defronte ao Hotem Vendaval, Carnaval de 1985

Pra tudo se acabar na quarta-feira

A gente trabalha um ano inteiro por um momento de glória

Vinicius de Moraes

Quatro décadas atrás, entrava na avenida de Capão da Canoa – em em clubes do Litoral e de Osório – um sonho em forma de bloco carnavalesco (ou vice-versa). Chamava-se VERDE COR e já nascia com samba enredo: “O barco que virou praia” foi criado para contar a história do navio que naufragou para batizar um pedaço de areia, céu e mar que passou a ser referido como Praia do Barco. Em tudo se parecia com uma escola de samba (estandarte, destaques, bateria…), só era pequenino se comparado. Porém, quando levamos em consideração o tamanho da comunidade à época e seu envolvimento, sua pouco mais de centena de pessoas galga status de gigantismo.

Coisas assim tão grandiosas não surgem ao acaso. Quatro carnavais antes, um grupo de jovens pegou as camisetas do time de futebol que disputava o histórico campeonato Praiano e partiu com uma carona aqui e outra acolá para a praia vizinha ao norte, Arroio Teixeira. Eu tinha quinze para dezesseis anos em 1980 e já era veterano em bailes, pois o nosso, no Hotel Vendaval, era muito concorrido. Quando criança pequena me infiltrava pela cozinha do salão para espiar os primeiros acordes da Banda do Bastião e, claro, concentrar-me na performance do baterista. Respirava confetes, alimentava-me de serpentina.

Comovida com nosso ímpeto, a querida Ilonka Janicsek Jara – uma das jovens que movimentara a praia uma geração mais velha – topou nos orientar no ano seguinte e criamos “Os Piratas do Barco”, bloco vinculado à JUBA (Juventude do Barco), face imberbe da SAPB (Sociedade Amigos da Praia do Barco). “Os Piratas II”, em 1982, já foi todo obra nossa, da meninada, que já aprendera naquele momento o caminho das ondas. Estímulo suficiente para nascer em mim um improvável carnavalesco. Ou nem tão improvável, pois dominava a técnica de todos os instrumentos de percussão, passando a ensinar amigos para que a charanga evoluísse para uma bateria.

No Carnaval de 1983 criei aquilo que nos diferenciou dos blocos tradicionais: as fantasias ganharam modelos vinculados ao tema “Os Náufragos do Barco”, simulando roupas em farrapos. Já éramos dezenas naquele momento, com estandarte e um grupo de ritmistas com três ou quatro tamborins, agogô, ganzá, reco-reco, caixa, repinique, surdos de primeira e de segunda, ensaios e tudo mais. Nossa entrada no baile se transformara num acontecimento, além de dar ao conjunto local bons trinta minutos de recomposição de fôlego – tempo estimado até nossa saída. Experimentamos, também, nossa primeira excursão organizada para outro baile (Osório) e compusemos uma ala de uma escola de samba local, do GAO. Eu e o Marquinho saímos na bateria!

Gostamos tanto que desejávamos mais, mas a SAPB exigia que pulássemos nos dois bailes da praia. Por isso, ainda em 1983, surgiu o insurgente e revolucionário VERDE COR. Teríamos bandeira própria (criei nome e logotipo), ainda que continuássemos levando o estandarte da associação. Estaríamos no baile principal (sábado) depois de voltarmos da inédita avenida em Capão da Canoa, e iríamos a três outros bailes. Passamos o verão inteiro promovendo festas, gincana e tudo o que fosse possível para pagar as quatro viagens de ônibus. Cada folião seria responsável por sua fantasia, livre, desde que em verde e branco.

Pintamos aparas de parquê em branco e verde, fizemos alças de couro e ensaiamos com uns 25 foliões entradas percussivas de palmas para criar efeitos em determinados momentos das músicas. No baile de Capão Novo, com uma visão privilegiada por comandar a bateria de cima do palco, tive minha primeira sensação de “se morrer amanhã já fiz algo sensacional”. Éramos quase 120 componentes, a maioria menores de idades confiados a nós, os mais velhos. Era o insuperável Carnaval de 1984 e eu tinha dezenove para vinte anos.

No fatídico Carnaval de 1985 saímos de “Verde Cor e a Sétima Arte”. Entramos na avenida de Capão com a bateria vestida de Bando da Lua, os destaques de Carmen Miranda e Carlitos, e o grupo cantando meu segundo samba-enredo – sim, o bloco tinha sambas-enredo desde o ano anterior. A chuva que caiu e desmanchou os chapéus da bateria ainda na concentração deveria ter sido vista como sinal do vertiginoso declínio. Depois de uma briga generalizada no cobiçadíssimo Baile de Santa Terezinha, da qual conseguimos resgatar todos em segurança no ônibus de volta, um desentendimento entre mim e o Miguel José Michelsen (éramos uma passional liderança xifópaga) desandou o samba para sempre.

Eu era muito jovem naquele momento e padecia de uma purpurinada vaidade. Pior do que não preparar legado – faltou-me aprender esta última lição com a Ilonka –, proibi o uso do nome VERDE COR no Carnaval seguinte. E em qualquer outro. Hoje, considero a decisão uma bobagem. De nossa história, breve como o espocar dos fogos de artifício, permaneceram cinzas e memórias a comprovar a fugacidade das conquistas. Ainda assim, foi um tempo/lugar a forjar quem eu me tornei na vida, ainda que em outros carnavais.

8 comentários em “Pra tudo se acabar na quarta-feira”

  1. Andre janicsek

    Grande maninho!!!!! A história tem que ser contatada, pois só desta forma, passamos adiante histórias incríveis para as futuras gerações barquianas.
    Curtimos nesta linda e sensacional Praia do Barco, anos de muita alegria e diversão. O hotel vendaval tem histórias incríveis!
    Grande abraço!

  2. Zeni Isquierdo Danelon

    Quanta energia!! Adorei. Eu também fui foliã de bloco e de escola de samba na nossa pequena Camaquã e conheço a emoção de desfilar pelas ruas e também da entrada triunfal nos clubes da cidade. Que tempo bom!!

    1. Rubem Penz

      Zeni, fico imaginando que lindos bailes aconteceram em Camaquã. As cidades tinham suas festas e o Carnaval era uma delas – talvez a mais especial do ano. Beijão!

  3. Maximiliano Soares

    Poxa que legal Rubem, quanta história bacana e imagino que isso deva ser uma pequena parte. Nós dias de hoje sou um apaixonado por essa praia. E sempre que podemos( eu minha esposa Vanessa Janicsek e Igor) estamos desfrutando deste lugar, desta praia que temos um carinho e admiração enorme. Neste carnaval estávamos lá, brincando, dançando, curtindo. Quê tenhamos vários carnavais 🙏🏾🙏🏾

    1. Rubem Penz

      Maximiliano, muito do encanto da praia passava por nossos velhos. Os avós da Vanessa, por exemplo. Foi maravilhoso conviver com a família de vocês! Abração!

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