Gavetas incômodas: lide com isso

A série do momento, “Adolescência” (Netflix), apresentou-me ao termo Incel (celibatários involuntários). Seriam homens que culpam as mulheres por seu fracasso sexual com base na teoria 80/20. No caso específico, quando 80% das mulheres se interessam por 20% dos homens, e alguém não está entre os escolhidos, a culpa do insucesso é delas, e não dele. Por isso, sente-se autorizado a cometer atitudes misóginas a partir da posição de vítima. A história nos convida a refletir. Depois dela, abri gavetas incômodas.

Ao buscar os arquivos da minha vida, especialmente entre os treze e os dezessete anos, a teoria 80/20 bate com a realidade. Poucos eram os meninos desejados e, na quase totalidade, eles se comportavam como machos alfa, ou seja, eram agressivos, autocentrados e grandes. Ser pequeno, solidário e pacífico não contava muitos pontos e, numa fase tão verde da maturidade, batia a revolta. Meu antídoto foi viver num tempo em que não nos sentíamos credores do Universo, que a todo instante soprava no ouvido: lide com isso.

“Jamais culpar a vítima” é um mantra 100% válido. Problema: a condição de vítima para o homem preterido não lhe cabe, o que desmonta a “justificativa” misógina. Aliás, nem combina com a macheza almejada – homem que é homem não admite covardia. Porém, há uma distância de léguas entre o interdito e a humilhação, às vezes escancarada, noutras sutil e insidiosa. Ainda mais quando pública e amplificada pelas redes. Humilhação pode avivar feridas profundas, invisíveis. Quem escolher tal caminho, lide com isso.

A permissividade está em moda. Também o narcisismo. Erra feio quem coloca todas as fichas na compensação da atual “falta de tempo” como fonte de filhos mimados. Crianças de antigamente eram muitíssimo menos expostas à mediação adulta, inclusive parental. Hoje, os pais permitem tudo porque querem estar bem na foto, deitarem-se leves ao travesseiro. Educar cansa e é desagradável, chato, antipático. Resultado: meninos e meninas se consideram credores do Universo por culpa dos pais. Quem estiver por perto, lide com isso.

Bom, se havia um abismo entre a minha geração e a dos meus filhos mais velhos, o futuro breve trará um oceano de distância para a caçula. A incredulidade da família e a cegueira de todos os adultos para o mundo digital representadas no drama “Adolescência” mexeram comigo. Com muita gente. Só me acalma a impressão de que, sei lá, os pais nunca estiveram no controle da vida dos filhos. Graças a Deus. A saída (se existe) seria: eduque, transmita bons valores e, se der tudo muito errado, lide com isso.

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