Aventuras & Desventuras na Mensagem de Ano Novo

Nem sempre é fácil compor uma crônica de Ano Novo, especialmente quando já se tem mais de vinte anos velhos, outrora novos, nos arquivos da produção literária. Emerge uma impressão de que tudo já foi dito de todas as formas possíveis. Esperançoso? Já fui. Irônico? Também. Criativo, insólito, morno, contemplativo, mordaz? Oh, dor. Em forma de artigo, de conto, resenha, mimética? São mais de duas décadas, deu tempo para tudo. Portanto, este ano farei o impensável: lançarei mão de jargões surrados, clichês, lugares-comuns.

Por exemplo, começar assim: “Um brinde ao ano que se encerra e outro ao ano que se inicia!”

[Perdão, Sr. Cronista. Sou eu outra vez, o Moderador. Acontece que recebemos um alerta sobre o excessivo consumo de bebidas alcoólicas nesta época do ano e, como certamente concordará, esta mensagem é inconveniente.]

Ok. Há muitos clichês, esse é dispensável. Vamos de: “Que o Ano novo não nos poupe nem na Felicidade, nem no Dinheiro!”

[Ah, os ciclos se repetem, Sr. Cronista… Preciso seguir alertando: associar felicidade a dinheiro é um acinte no que tange a desigualdade social que experimentamos no país. Tente outra vez.]

Bora lá: “Hoje é dia de tirar a camisa branca do armário e comemorar o Réveillon em família!”

[Parabéns: três problemas em uma só linha, o Sr. está se puxando, hein? Camisa branca? BRANCA!? Sem comentários. Para piorar, um termo francófono que só faz crescer o domínio eurocentrista da história. E o desfecho? Família? E os que não têm família, como ficam? Reformule com urgência.]

Hummm… “Sorte e sucesso no ano que se inicia?”

[Pelo “Hummm…” o Sr. sabia que seria reprovado, né? Quando juntamos a palavra sorte com a palavra sucesso, estamos quase a dizer que os insucessos são frutos da falta de sorte, e não de um sistema excludente e discriminatório. Siga, temos tempo.]

Tempo, temos. Paciência, não. E “Feliz Ano Novo”, Sr. Moderador. Essa frase ainda pode?

[Depende… Antes, defina felicidade. Epicuro ou Kant?]

14 comentários em “Aventuras & Desventuras na Mensagem de Ano Novo”

  1. Iara Tonidandel

    Mundo atual onde “quase toda palavra” encontra-se no item do sumário: politicamente incorreto.

  2. Excelente, Rubem ! A grande verdade é que este mundo, ou grande parte dele, está ficando muito chato. Como diria o Filósofo Muçum : “Cacildis”…..

  3. Não esperava menos que uma crônica com tanta qualidade quanto esta e fico tranquilo por plagiar ostensivamente:
    “Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender! “
    (Potencial comentário do moderador Rubem: dinheiro no bolso como pressuposto de felicidade estimula o consumismo e faz crer que ter é mais importante que ser) – certo, meu argumento também é lugar comum, aceito a crítica.
    “Saúde para dar e vender” (potencial comentário do moderador Rubem: saúde não é um produto compra e venda. Quem não tem saúde precisa pagar um convênio ?).

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