Comemora-se em 20 de janeiro o Dia Nacional do Fusca. Data ideal para dizer que não escapei da tradição brasileira de ter um besouro para chamar de seu. Um, ao menos. O meu era o Pascoal, ano 1977, e ele foi marcante por diversos motivos.
Seu nascimento – ou deveríamos chamar de adoção? – aconteceu por motivos estratégicos. Era um jovem adulto, recém-formado, namorando firme e ávido por autonomia. Já não havia dois carros em casa, e o pai começava a torcer o nariz para a divisão do único. No horizonte, um sacrifício: vender a Tigresa, minha bateria, e raspar a poupança. Alto custo emocional. Era dezembro, lembro bem. Dei-me de Natal.
No entanto, havia um problema: buscamos ele em São Leopoldo, “carro de professora”, disse o vendedor. Ao passar por Sapucaia do Sul, o volante puxava violentamente para a direita, na direção da Gerdau. O ímã da metalúrgica sabia que seu destino correto não era Porto Alegre, era o ferro velho. Por isso, em vez de ele ir para casa, o Fusca foi para a oficina mecânica. Começava uma saga.
Descobri que o estepe não estava em seu lugar programado porque o Fusca estava mais curto do que o queixo do Noel Rosa. O assoalho? Era um chale de renda, não um piso confiável. O motor pedia ar (iniciados sabem que aqui não cabe a metáfora da água) e deveríamos chapear e pintar muitas partes. Com que dinheiro?
Conhecia Antônio Zilmar, o mecânico, desde 1978. Meu pai o ajudara a montar a oficina. Eu tinha créditos herdados. Estacionei o carro lá e, a cada sábado, passava a manhã inteira trabalhando sob sua supervisão, junto com meu amigo Helio Vicente, muitíssimo mais talhado do que eu. Perto da Páscoa, conseguimos terminar o serviço – daí Pascoal. Ganhei do sogro à época quatro pneus novos, prova de que gostava de mim e da segurança da filha.
Ele era lindo, branquíssimo, simpático. Valente. Companheiro de muitas aventuras. Procurei fotos e não encontrei. Talvez o Helio tenha. Será? Fosse hoje, toda a epopeia teria sido instagramável, da compra ao último parafuso – noutro tempo, perrengue não era conteúdo, era aprendizado e preço a pagar.
Por fim, já noivo e com data marcada, vendi o Fusca para comprar móveis básicos para o primeiro apartamento (essa venda rende outra crônica). Pascoal seguiu a sina de Tigresa, ambos sacrificados por um bem maior. Não me arrependi de tê-lo passado adiante. Quanto ao casamento… Hummm. Fiquemos na alegria de comemorar o Dia Nacional do Fusca.


Aqui temos um exemplo de Crônica de Efeméride. Não é um formado ancorado na estratégia, e sim na temática. É um recurso de aproveitamento de interesse público. É ótimo porque nos brinda com um tema consagrado, é perigoso pela natural comparação com a produção do cânone. Por isso, será tão melhor desenvolvida quanto mais pessoal for – nossa experiência será marca de originalidade.