The 70s forever

Século passado adentro, quando eu era estudante, havia três tipos de provas. Numa escala de pior para melhor: a prova surpresa, a prova agendada e a prova com consulta. Detalhe: para quem estivesse disposto a correr riscos, todas as provas eram com consulta – fosse por uma olhada na resposta do colega, fosse em anotações discretas. Atual século afora, permitir consulta é praticamente franquear as respostas ao banco de dados disponível na palma da mão, desde que se tenha Wi-fi. O professor precisa ser muito bom para formular uma questão que evidencie autoria sem tutela.

Outra diferença brutal está na tirada de dúvidas. Cansei de assistir ou protagonizar discussões feéricas na mesa de bar sobre um detalhe qualquer sem que uma das partes renunciasse a sua versão como a correta ou verdadeira. Amizades colocadas em risco, brigas quase – quando não – físicas no horizonte imediato, gritos e bateres na mesa. Como ali não havia acesso a uma Enciclopédia Barsa, a pendência ficava com a resolução prometida e o estrago feito. Hoje, tais bravatas têm a intensidade de um soluço – como o tira-teima é instantâneo, ninguém mais jura nada pela mãe morta.

A escolha de produtos também mudou muito. Bem para trás, não havia muitas alternativas viáveis: adquirir algo estava ligado ao estoque da loja ou, no máximo, numa encomenda. Marcas? Poucas. Modelos? Raros. Customização? Só as caseiras. Hoje, não foi uma nem duas vezes que consultamos um sem-número de modelos, marcas e preços de dentro de uma determinada loja física, com a concorrência ali pressionando. Ou, pior: dentro da loja, lançamos mão de sua versão digital para retirar ali mesmo, e mais barato. Loucura.

Por isso simpatizei com o anúncio que prometia um “Final de semana 1970”. Uma experiência com conforto (nada de camping selvagem ou largados e pelados), mas sem tecnologia. Paradoxo: chegou para mim no celular e impulsionado pelo algoritmo. Descartei, claro. Quem precisa simular 1970 quando teve a Praia do Barco sem luz no verão passado?

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