Leve a vida como um baterista de trio

Na próxima sexta-feira serei o baterista do Max Trio. Comigo, a discreta dissidência do Grupo Versão Brasileira (Antonio e Marcelo) se torna “o Versão sem o Felipe”. Pior: como o Felipe fará participação especial no sax, será quase “o Versão sem o Felipe com o Felipe”. Não tente entender. Outro convidado, Ayres Potthoff, completa o show. Muita gente e pouco ensaio: dois.

Ser o baterista numa formação de trio de jazz é algo interessante. Durante o solo, é importante conhecer bem os temas. As linhas de contrabaixo indicam por onde andamos, é claro. Mas são discretas. Ou você tem a sequência melódica firme na memória, ou trilhará quase às cegas. Para piorar, há convenções: improvisará o tema inteiro? Uma vez, duas? Em algum momento o tema volta no meio? Há supressões de parte B ou C? Muitas variáveis.

Eu, particularmente, acrescento ao trajeto uma dificuldade extra: não guardo o nome das músicas. Muito menos sei que música é quando leio o repertório. Isso não é de hoje, sempre foi assim. Neurolinguistas poderiam ancorar uma tese neste particular (que, segundo soube, afeta com mais frequência o pessoal da percussão). Sequelas congênitas em cérebros de bateristas diante da folha de repertório – uma abordagem na ordem do caos. Isso, ou animar psicólogos e psiquiatras.

E como tirar disso uma lição de vida? Ora, da forma mais sem-vergonha possível: propondo uma autoajuda de botequim. Tipo: seja contingente; na vida, controle é uma mentira elegante. Pense o seu dia como um baterista de trio que não teve muitos ensaios: você intui os caminhos, está de ouvidos atentos ao entorno e, sempre que pode, olha para as simbólicas mãos do baixista – ainda que nada disso seja suficiente. Então, mostra-se calmo e dominador para que acreditem em você. E, de preferência, não erre, pois há na base o condão de derrubar a todos.

Fácil, né? Ou, enquanto é tempo, aprenda a ler partituras.

Depois de sexta-feira, dou notícias a quem perdeu o show.

 

Crônica de comparação

4 comentários em “Leve a vida como um baterista de trio”

  1. Anilson Costa

    Brilhante e intrigante texto de R. Penz, multitalento de dons, aptidões e habilidades. Intrigante por ser a bateria o instrumento que elegeu para exercer sua dominação e controle na execução musical em grupo.
    Modestamente e “freudianamente” falando, diria que a dominação é uma forma de gerir o medo inconsciente da desordem.
    Com isso, ganham todos: espectadores e a música. Como na clássica piada do safári na África:
    Um turista do safári ouve tambores distantes.
    Ele pergunta ao guia: “O que acontece se a bateria parar?”.O guia responde, apavorado: “Solo de baixo!”.

    1. Hahahaha! Parar no solo de baixo, não paro. Mas fico beeem pequenino! Obrigado pela leitura e comentário, Anilson

    2. Eduardo Penz

      Maravilha Mano e faz muito bem em não nos abandonar, nem se apequene muito, os baixistas agradecem imensamente aquele groove rolando firme na hora do solo! Hehehe Abração

      1. Obrigado, Dudu!
        Como de costume, deu tudo certo e o público nem notou o que não deu tão certo assim. Beijão!

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