Imaginemos a cena: um rapaz e uma moça, aproximados por qualquer que seja a forma, desde a mais impessoal rede social ao menos formal comentário diante da banca de frutas, marcam um café para se conhecerem melhor. E cada um chega de seu lado, ao mesmo tempo, ambos carregando uma enorme mala, uma mala média e uma frasqueira.
Beijam-se no rosto, são cordiais beirando a formalidade. Escolhem uma mesa de canto (para poderem acomodar a bagagem sem atrapalhar o garçom) e se olham bem nos olhos. Há um sorriso, uma centelha de paixão, um friozinho na barriga de parte a parte. Apanham o cardápio para bem ocupar as mãos. E, claro, um repara na bagagem do outro.
Depois de pedirem um espresso duplo e um capuccino, duas medias lunas e uma água com gás com dois copos, a moça não se aguenta e pergunta o que tem na bagagem do moço. Ele aponta para a frasqueira e responde ser expectativas. Coincidência, ela responde, trouxe as minhas também. Acham graça do acontecido. O pedido chega. Hummm, que delícia, concordam.
É a vez do rapaz perguntar para a menina o que há na mala média, demonstrando atenção à reciprocidade. Pensa que pegaria muito mal parecer menos interessado do que ela, ou menos curioso, ou menos atento. Menos, enfim. Ela diz que são seus valores. Coisa que vem de família, sabe? Quando ele aponta para sua mala média sorrindo: bis! Os cafés terminaram a conversa flui, o garçom recolhe os pratos. Restam os copos e a água. Ela avisa que vai à toalete.
O rapaz não se aguenta e espia a etiqueta que está na mala grande: feminismo ativo. Volta ao lugar preocupado. Quando ela retorna, é ele quem pede licença e, também ela, olha a etiqueta da mala grande do menino: machismo residual. Quando novamente juntos, não conseguem mais a mesma naturalidade. Quer mais alguma coisa, ele pergunta educado. Ela responde que desejaria que ele evoluísse, e você? Também.
Resultado: ela não gostou da resposta dúbia e levou para o lado mau. Ele não gostou do julgamento prévio e levou para o lado mau. Ao chegar a conta, o rapaz se oferece para pagar e a moça pede comandas separadas. Depois, cada um apanha suas malas e se vão. Para sempre.


E as duas malas estavam vazias. A esperança e a soberba mal aplicada, afugentou a felicidade deixando uma alma vazia também
Uau, Dirceo… E eu achei que estava melancólico. Aí vem você e arrebenta.
Gracias, abraço
Chamem Daniel Kanemann!!! Eis uma crônica que demonstra com perfeição um problema que, nas mãos do cientista certo, facilmente ficaria conhecido como: o ruído da etiqueta.
Auri, não conheço o Daniel. Mas toda ajuda é bem-vinda para formular problemas com nomes charmosos como ‘ruído da etiqueta”. Obrigado!
Não há mais tempo de conhecer, infelizmente faleceu em 2024. É Premio Nobel de Ciências Econômicas em 2002. Trago lidos, dele, ao menos dois livros importantes: “Rápido e Devagar, Duas Formas de Pensar” e “Ruído, uma falha no julgamento humano”.
“Ruído” seria qualquer coisa que atrapalha o julgamento, pode ser cansaço, barulho, preconceito, pressa… Na cena que descreve, duas pessoas foram influenciadas, decidiram se afastar, com base na etiqueta das malas. Descartaram a possibilidade de se relacionar com base num rótulo, premissa não necessariamente confirmada. Talvez (mas aí é só um talvez) seus instintos ou experiências de vida fizeram com que escolhessem, racionalmente, não querer se incomodar com características pessoais do outro, quais não toleram mutuamente. Todo mundo já passou por isso ao menos uma vez na vida. A pessoa é ótima, mas ela tem cabelos compridos, então não. A pessoa é ótima, mas tem uma pinta no meio do nariz, então não. A pessoa é ótima, mas é músico, escritor, contador, tem filhos, não tem filhos, já foi casada, nunca foi casada, é muito nova, é muito velha… então não, não e não!
A crônica serve perfeitamente para elucidar um tipo de falha no julgamento humano que pode ocorrer, se não estivermos atentos. Tentei escrever sobre isso lá na minha humilde página, mas não tive sucesso. Você foi bem sucedido no exemplo. Talvez gostasse de ler. Link abaixo. Obrigada. Abraços.
https://alegracatarina.wordpress.com/2024/08/07/ruido-nem-sempre-e-onda-sonora/
Auri, discordo. Você também foi muito bem sucedida por outro caminho. Aliás, com a competência de quem tem muitos anos de carteira de cronista. Parapenz, belo texto!
Pré-julgamento e interpretação, cada um com os seus. Conclusão baseada na etiqueta – rótulo. O machismo “residual” (pagar toda a conta?) pode significar tanta coisa; por exemplo, resquício cultural e familiar do qual ele pudesse se libertar a partir de uma nova perspectiva que ela lhe traria com seu feminismo (comandas separadas?). E o feminismo, esse também da etiqueta. Como sabê-los?
Eis o melancólico, Jacque: não sobreviveram ao pré-julgamento para, desta forma, construirem algo além dele próprio. Triste, não? Mas a pergunta é: verossímil?
Abração!
Em minha opiniao, certamente que sim. A linguagem das imagens, das metáforas – o dito representado. A leitora que inteprete. Você faz isso com maestria.
Abraço!
Obrigado pela generosidade!
Nessa história, estou do lado do homem. Ele sabe que o feminismo virou uma grande porcaria nas mãos das feministas. Nenhum homem é feliz ao lado de uma feminista. Mas toda mulher não feminista sabe o quanto é gratificante receber um convite para um café de um “macho residual” e ele pagar a conta no final, por cavalheirismo.
Ah, Regina…
Eu sou um otimista: encontraremos a medida certa com o tempo.
Muito obrigado, abração